Terra de Teixeira e Souza, considerado por muitos o autor do primeiro romance tipicamente brasileiro, a cidade inspirou diversos escritores com suas paisagens salinas e relatos sobre a vida litorânea.
O Sal e a Palavra: A Cena Literária de Cabo Frio entre a Tradição de Teixeira e Sousa e a Efervescência da Sophia Editora
Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, é conhecida por suas praias de areia branca, pelas dunas da restinga e pela lagoa hipersalina que lhe dá nome. Mas abaixo da superfície turística, há uma corrente literária que flui silenciosa e vigorosamente há quase dois séculos. Se a cidade respira sal no ar, respira literatura na alma — uma tradição que remonta ao primeiro romancista brasileiro e que hoje se reinventa nas mãos de editores independentes, academias revitalizadas e poetas que transformam a paisagem em verso.
Este artigo mergulha nas águas profundas dessa cena literária, resgatando a figura tutelar de Teixeira e Sousa, mapeando a atuação contemporânea da Academia de Letras e Artes de Cabo Frio (ALACAF) e da Sophia Editora, e analisando as temáticas que movem os novos autores — do resgate histórico à poesia de memória e território.
1. Raízes e Tradição: Teixeira e Sousa, o Primeiro Romancista Brasileiro
Toda história literária de Cabo Frio começa com um nome incontornável: Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa (1812-1861). Nascido na cidade — então ainda uma vila —, ele é reconhecido pela crítica como o primeiro romancista brasileiro. Sua obra-prima, "O Filho do Pescador" (1843), é um marco fundador da prosa de ficção no país, antecedendo em anos os romances de Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Antônio de Almeida.
Teixeira e Sousa foi um autor prolífico e controverso. Negro, filho de pai português e mãe escravizada, enfrentou preconceitos que o acompanharam por toda a vida. Sua obra transitou entre o romantismo e o indianismo, e ele também se destacou como poeta, teatrógrafo e folclorista. A importância de Teixeira e Sousa para Cabo Frio é tão central que, até hoje, a cidade promove anualmente a Semana Teixeira e Sousa, um evento que celebra sua memória e reacende o debate sobre literatura local.
Seu legado, no entanto, vai além da obra publicada. Ele representa a possibilidade de que, a partir de uma cidade pequena, às margens do circuito cultural do Império, pudesse emergir uma voz literária de alcance nacional. Essa lição — de que o interior também produz cultura de ponta — é a espinha dorsal que sustenta a cena literária cabo-friense até os dias de hoje.
2. A Cena Contemporânea: ALACAF, Sophia Editora e a Conquista da Flip
Se Teixeira e Sousa é o patrono, a Academia de Letras e Artes de Cabo Frio (ALACAF) é, hoje, a principal instituição aglutinadora da produção literária local. Fundada em 2018, a ALACAF nasceu do esforço de escritoras como Jaqueline Brum e Andréa Rezende, que já coordenavam o grupo "Flores Literárias" e realizavam saraus mensais e festivais literários.
A academia tem 28 membros fundadores, incluindo nomes como Célio Mendes Guimarães (presidente de honra, autor de mais de 200 obras), Meri Damaceno (secretária de Cultura e escritora), Carlos Henrique Ferreira (historiador da imprensa regional) e Bia Fernandes, Symone Castro e Eloise Gomes. A ALACAF não é uma entidade fechada em si mesma; ela tem se dedicado a ocupar espaços públicos, promover saraus e, crucialmente, representar Cabo Frio nos maiores eventos literários do país.
A Conquista da Flip 2024
O ano de 2024 foi um divisor de águas para a cena literária cabo-friense. Pela primeira vez, um contingente expressivo de escritores da cidade marcou presença na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o maior evento literário da América Latina. A Câmara Municipal de Cabo Frio reconheceu oficialmente a conquista, aprovando por unanimidade uma Moção de Aplausos aos escritores que representaram a cidade.
A lista de autores homenageados revela a diversidade e a força da ALACAF:
-
Jaqueline Brum (presidente da ALACAF): autora de "Aventuras na laguna", obra infantil que dialoga com a geografia local.
-
Andréa Rezende: autora de "Agridoce", uma coletânea que transita entre a crônica e a poesia sobre os contrastes da vida.
-
Luciane Quintanilha: poeta de sensibilidade aguçada, presença constante nos saraus da região.
-
Renato Fulgoni: escritor infantil e editor da Aldeia Editora, apresentou seu livro "O Vira-lata Caramelo".
-
Rosana Silva, Bia Fernandes, Eloise Gomes, Flavio Machado, Symone Castro e Isac Machado: nomes que compõem o caldo cultural da academia e que levaram a poesia e a prosa cabo-friense aos palcos de Paraty.
A moção destaca que a presença na Flip "não é apenas uma conquista, mas também um ato de representatividade que projeta o nome de nossa cidade para além de suas fronteiras". E, ao mencionar a ALACAF, os vereadores ressaltaram seu compromisso em "propagar o legado de seu patrono, Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro".
Sophia Editora: A Máquina de Publicar Memórias
Se a ALACAF é a vitrine, a Sophia Editora, fundada e mantida pelo escritor Rodrigo Cabral, é a máquina que transforma manuscritos em livros. Sediada em Cabo Frio, a editora tem se especializado em publicações que dialogam com história, memória e patrimônio — não apenas da Região dos Lagos, mas do Brasil.
O catálogo da Sophia Editora é impressionante em sua diversidade e compromisso com o resgate histórico:
| Título | Autor(a) | Temática |
|---|---|---|
| Revolta do Cachimbo | Gessiane Nazario | Luta pela terra no Quilombo da Caveira |
| O primeiro indígena universitário do Brasil | Scaldaferri & Sant'Anna | Biografia de Dr. José Ypiranga dos Guaranys (1824-1873) |
| Cabo Frio e a pesca da baleia | Scaldaferri & Ferreira | História econômica dos séculos XVIII e XIX |
| *K-36 – o zeppelin que caiu no Cabo* | Leandro Miranda | Curiosidade histórica local |
| O Filho do Pescador (ed. anotada) | Teixeira e Sousa | Reedição do clássico do patrono local |
| Cabo Frio Revisitado | Ivo Barreto | Memória regional pela via contemporânea |
| História de Cabo Frio Contada à minha filha | Luiz Guilherme Scaldaferri | Narrativa histórica acessível |
A editora não se limita a publicar. Ela ocupa espaços. Em 2024, participou pela segunda vez da Flip, integrando a programação da Casa Gueto, um espaço dedicado a selos independentes no Centro Histórico de Paraty. Em abril de 2025, foi selecionada para a 3ª Feira Canastra, em Belo Horizonte, levando a produção literária fluminense para o público mineiro. A Sophia Editora também investe em formatos contemporâneos, como audiolivros e e-books, ampliando o acesso à cultura regional.
O Protagonismo de Rodrigo Cabral: Poeta, Editor, Semifinalista do Jabuti
A figura central dessa efervescência é Rodrigo Cabral. Nascido em Campos dos Goytacazes e criado em Cabo Frio, ele é, aos 35 anos, escritor, editor e produtor cultural. Sua trajetória é um caso exemplar de como a literatura independente pode, com persistência e qualidade, alcançar o reconhecimento nacional.
Em 2024, Cabral foi segundo colocado no Prêmio Off Flip de Literatura (categoria Contos) e semifinalista na categoria Poesia. Em 2023, conquistara o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Mas o ápice veio em 2025: seu livro de estreia, "Refinaria", tornou-se semifinalista do Prêmio Jabuti na categoria "Escritor Estreante – Poesia". A notícia foi celebrada pela imprensa regional como um marco para a cultura local: "Rodrigo Cabral, morador de Cabo Frio, é semifinalista do Prêmio Jabuti 2025".
"Refinaria" foi lançado durante a Flip 2024 e também na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 2025. A obra conta com ilustrações de Rapha Ferreira, prefácio de Júlia Vita e orelha assinada por Thiago Freitas. Em breve, será adaptada para o teatro, com direção de Rodrigo Senna e atuação de Guilherme Guaral.
3. Temáticas e Obras: O Resgate da Memória e a Poesia do Território
A produção literária contemporânea de Cabo Frio se organiza em torno de dois eixos temáticos principais, que se complementam e dialogam entre si.
A Literatura de Resgate Histórico
O catálogo da Sophia Editora é o maior expoente dessa vertente. Trata-se de uma literatura que se debruça sobre arquivos, memórias apagadas e histórias não contadas da região e do país. Autores como Luiz Guilherme Scaldaferri, Gessiane Nazario e Leandro Miranda dedicam-se a pesquisar e narrar episódios que vão desde a pesca da baleia no século XVIII até a luta por terra no Quilombo da Caveira.
Gessiane Nazario, além de autora do histórico "Revolta do Cachimbo", também transita pela literatura infantil com "Aspino e o boi", uma obra que, segundo a autora, dialoga com "questões raciais" de forma lúdica e acessível. Durante a Flip 2024, ela participou da mesa "Vamos falar sobre questões raciais?", evidenciando o compromisso da editora com a diversidade e a representatividade.
A Poesia de Memória e Paisagem
A outra grande vertente é a poesia de cunho memorialístico e territorial, tendo Rodrigo Cabral como seu principal representante. "Refinaria" é uma coletânea de poemas que busca "captar as transformações da paisagem da Região dos Lagos, assim como as memórias que a envolvem". A obra é, nas palavras do autor, uma tentativa de "ouvir o que esses cenários diziam sobre minhas memórias, sempre borradas e fragmentadas".
Elementos centrais da poesia de Cabral:
-
A figueira centenária: símbolo de permanência em meio às mudanças, a árvore da rua onde o autor cresceu é um dos poucos elementos que restam em meio à transformação urbana.
-
A Laguna de Araruama: a maior laguna hipersalina do mundo é mais do que paisagem; é metáfora para a salinidade da memória e para a vastidão do tempo.
-
A camada pré-sal e a cana-de-açúcar: referências à geologia e à história econômica de Campos dos Goytacazes, cidade natal do autor, que se entrelaçam com sua biografia.
-
A relação com o pai: tema recorrente, que humaniza a obra e a conecta com experiências universais de perda e afeto.
A linguagem de Cabral equilibra o regional e o universal, dialogando com influências que vão de José Lins do Rego (especialmente "Água-mãe", com suas descrições de Cabo Frio) a Olga Savary, Roberto Piva, Ferreira Gullar e os beats americanos Allen Ginsberg e Jack Kerouac.
A Literatura Infantil com Consciência Local
Um terceiro gênero que ganha força é a literatura infantil e infanto-juvenil com forte ancoragem na geografia e na cultura local. Jaqueline Brum, presidente da ALACAF, é autora de "Aventuras na laguna", que transforma a paisagem da Região dos Lagos em cenário de fantasia e aprendizado. Renato Fulgoni, também presente na Flip 2024, segue a mesma linha com "O Vira-lata Caramelo", uma narrativa sobre amor e lealdade que tem como protagonista o cachorro símbolo da cultura brasileira.
4. Conclusão: Uma Cena em Refinamento Constante
Cabo Frio tem, em sua tradição literária, o peso e a honra de ter sido o berço do primeiro romancista brasileiro. Mas a cidade não se acomodou nesse legado. Ao contrário, construiu sobre ele uma cena contemporânea vibrante, ancorada em instituições como a ALACAF e em empreendimentos culturais independentes como a Sophia Editora.
O que se vê em Cabo Frio é um movimento literário que se caracteriza por:
-
Institucionalização: a ALACAF dá suporte, organização e representatividade aos escritores locais.
-
Profissionalização: a Sophia Editora oferece um caminho de publicação profissional, com distribuição e presença em feiras nacionais.
-
Reconhecimento: a conquista do semifinalismo no Jabuti por Rodrigo Cabral prova que a produção local tem qualidade para dialogar com o mainstream.
-
Compromisso com a memória: seja pelo resgate histórico, seja pela poesia de paisagem, a literatura cabo-friense está profundamente enraizada no território e na história da Região dos Lagos.
E há ainda espaço para o lúdico, o infantil e o afetivo. A cena é diversa, e nela cabem tanto o rigor acadêmico de Scaldaferri quanto a poesia visceral de Cabral, tanto a crônica cotidiana de Andréa Rezende quanto as aventuras na laguna de Jaqueline Brum.
Cabo Frio prova que é possível fazer literatura de qualidade fora do eixo Rio-São Paulo. Basta ter sal na alma — e palavra na ponta da língua.
Fontes pesquisadas:
Lagos Informa, RJ no ar, Câmara Municipal de Cabo Frio, Solutudo, SOU Região dos Lagos, Prefeitura de Cabo Frio, Booklover, Diário do Rio de Janeiro, G1 Região dos Lagos, Folha dos Lagos.
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
🖥️Código html limpo com o uso de ferramenta própria.
Terra de Teixeira e Souza, considerado por muitos o autor do primeiro romance tipicamente brasileiro, a cidade inspirou diversos escritores com suas paisagens salinas e relatos sobre a vida litorânea.
O Sal e a Palavra: A Cena Literária de Cabo Frio entre a Tradição de Teixeira e Sousa e a Efervescência da Sophia Editora
Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, é conhecida por suas praias de areia branca, pelas dunas da restinga e pela lagoa hipersalina que lhe dá nome. Mas abaixo da superfície turística, há uma corrente literária que flui silenciosa e vigorosamente há quase dois séculos. Se a cidade respira sal no ar, respira literatura na alma — uma tradição que remonta ao primeiro romancista brasileiro e que hoje se reinventa nas mãos de editores independentes, academias revitalizadas e poetas que transformam a paisagem em verso.
Este artigo mergulha nas águas profundas dessa cena literária, resgatando a figura tutelar de Teixeira e Sousa, mapeando a atuação contemporânea da Academia de Letras e Artes de Cabo Frio (ALACAF) e da Sophia Editora, e analisando as temáticas que movem os novos autores — do resgate histórico à poesia de memória e território.
1. Raízes e Tradição: Teixeira e Sousa, o Primeiro Romancista Brasileiro
Toda história literária de Cabo Frio começa com um nome incontornável: Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa (1812-1861). Nascido na cidade — então ainda uma vila —, ele é reconhecido pela crítica como o primeiro romancista brasileiro. Sua obra-prima, "O Filho do Pescador" (1843), é um marco fundador da prosa de ficção no país, antecedendo em anos os romances de Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Antônio de Almeida.
Teixeira e Sousa foi um autor prolífico e controverso. Negro, filho de pai português e mãe escravizada, enfrentou preconceitos que o acompanharam por toda a vida. Sua obra transitou entre o romantismo e o indianismo, e ele também se destacou como poeta, teatrógrafo e folclorista. A importância de Teixeira e Sousa para Cabo Frio é tão central que, até hoje, a cidade promove anualmente a Semana Teixeira e Sousa, um evento que celebra sua memória e reacende o debate sobre literatura local.
Seu legado, no entanto, vai além da obra publicada. Ele representa a possibilidade de que, a partir de uma cidade pequena, às margens do circuito cultural do Império, pudesse emergir uma voz literária de alcance nacional. Essa lição — de que o interior também produz cultura de ponta — é a espinha dorsal que sustenta a cena literária cabo-friense até os dias de hoje.
2. A Cena Contemporânea: ALACAF, Sophia Editora e a Conquista da Flip
Se Teixeira e Sousa é o patrono, a Academia de Letras e Artes de Cabo Frio (ALACAF) é, hoje, a principal instituição aglutinadora da produção literária local. Fundada em 2018, a ALACAF nasceu do esforço de escritoras como Jaqueline Brum e Andréa Rezende, que já coordenavam o grupo "Flores Literárias" e realizavam saraus mensais e festivais literários.
A academia tem 28 membros fundadores, incluindo nomes como Célio Mendes Guimarães (presidente de honra, autor de mais de 200 obras), Meri Damaceno (secretária de Cultura e escritora), Carlos Henrique Ferreira (historiador da imprensa regional) e Bia Fernandes, Symone Castro e Eloise Gomes. A ALACAF não é uma entidade fechada em si mesma; ela tem se dedicado a ocupar espaços públicos, promover saraus e, crucialmente, representar Cabo Frio nos maiores eventos literários do país.
A Conquista da Flip 2024
O ano de 2024 foi um divisor de águas para a cena literária cabo-friense. Pela primeira vez, um contingente expressivo de escritores da cidade marcou presença na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o maior evento literário da América Latina. A Câmara Municipal de Cabo Frio reconheceu oficialmente a conquista, aprovando por unanimidade uma Moção de Aplausos aos escritores que representaram a cidade.
A lista de autores homenageados revela a diversidade e a força da ALACAF:
-
Jaqueline Brum (presidente da ALACAF): autora de "Aventuras na laguna", obra infantil que dialoga com a geografia local.
-
Andréa Rezende: autora de "Agridoce", uma coletânea que transita entre a crônica e a poesia sobre os contrastes da vida.
-
Luciane Quintanilha: poeta de sensibilidade aguçada, presença constante nos saraus da região.
-
Renato Fulgoni: escritor infantil e editor da Aldeia Editora, apresentou seu livro "O Vira-lata Caramelo".
-
Rosana Silva, Bia Fernandes, Eloise Gomes, Flavio Machado, Symone Castro e Isac Machado: nomes que compõem o caldo cultural da academia e que levaram a poesia e a prosa cabo-friense aos palcos de Paraty.
A moção destaca que a presença na Flip "não é apenas uma conquista, mas também um ato de representatividade que projeta o nome de nossa cidade para além de suas fronteiras". E, ao mencionar a ALACAF, os vereadores ressaltaram seu compromisso em "propagar o legado de seu patrono, Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro".
Sophia Editora: A Máquina de Publicar Memórias
Se a ALACAF é a vitrine, a Sophia Editora, fundada e mantida pelo escritor Rodrigo Cabral, é a máquina que transforma manuscritos em livros. Sediada em Cabo Frio, a editora tem se especializado em publicações que dialogam com história, memória e patrimônio — não apenas da Região dos Lagos, mas do Brasil.
O catálogo da Sophia Editora é impressionante em sua diversidade e compromisso com o resgate histórico:
| Título | Autor(a) | Temática |
|---|---|---|
| Revolta do Cachimbo | Gessiane Nazario | Luta pela terra no Quilombo da Caveira |
| O primeiro indígena universitário do Brasil | Scaldaferri & Sant'Anna | Biografia de Dr. José Ypiranga dos Guaranys (1824-1873) |
| Cabo Frio e a pesca da baleia | Scaldaferri & Ferreira | História econômica dos séculos XVIII e XIX |
| *K-36 – o zeppelin que caiu no Cabo* | Leandro Miranda | Curiosidade histórica local |
| O Filho do Pescador (ed. anotada) | Teixeira e Sousa | Reedição do clássico do patrono local |
| Cabo Frio Revisitado | Ivo Barreto | Memória regional pela via contemporânea |
| História de Cabo Frio Contada à minha filha | Luiz Guilherme Scaldaferri | Narrativa histórica acessível |
A editora não se limita a publicar. Ela ocupa espaços. Em 2024, participou pela segunda vez da Flip, integrando a programação da Casa Gueto, um espaço dedicado a selos independentes no Centro Histórico de Paraty. Em abril de 2025, foi selecionada para a 3ª Feira Canastra, em Belo Horizonte, levando a produção literária fluminense para o público mineiro. A Sophia Editora também investe em formatos contemporâneos, como audiolivros e e-books, ampliando o acesso à cultura regional.
O Protagonismo de Rodrigo Cabral: Poeta, Editor, Semifinalista do Jabuti
A figura central dessa efervescência é Rodrigo Cabral. Nascido em Campos dos Goytacazes e criado em Cabo Frio, ele é, aos 35 anos, escritor, editor e produtor cultural. Sua trajetória é um caso exemplar de como a literatura independente pode, com persistência e qualidade, alcançar o reconhecimento nacional.
Em 2024, Cabral foi segundo colocado no Prêmio Off Flip de Literatura (categoria Contos) e semifinalista na categoria Poesia. Em 2023, conquistara o terceiro lugar no Festival de Poesia de Lisboa. Mas o ápice veio em 2025: seu livro de estreia, "Refinaria", tornou-se semifinalista do Prêmio Jabuti na categoria "Escritor Estreante – Poesia". A notícia foi celebrada pela imprensa regional como um marco para a cultura local: "Rodrigo Cabral, morador de Cabo Frio, é semifinalista do Prêmio Jabuti 2025".
"Refinaria" foi lançado durante a Flip 2024 e também na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 2025. A obra conta com ilustrações de Rapha Ferreira, prefácio de Júlia Vita e orelha assinada por Thiago Freitas. Em breve, será adaptada para o teatro, com direção de Rodrigo Senna e atuação de Guilherme Guaral.
3. Temáticas e Obras: O Resgate da Memória e a Poesia do Território
A produção literária contemporânea de Cabo Frio se organiza em torno de dois eixos temáticos principais, que se complementam e dialogam entre si.
A Literatura de Resgate Histórico
O catálogo da Sophia Editora é o maior expoente dessa vertente. Trata-se de uma literatura que se debruça sobre arquivos, memórias apagadas e histórias não contadas da região e do país. Autores como Luiz Guilherme Scaldaferri, Gessiane Nazario e Leandro Miranda dedicam-se a pesquisar e narrar episódios que vão desde a pesca da baleia no século XVIII até a luta por terra no Quilombo da Caveira.
Gessiane Nazario, além de autora do histórico "Revolta do Cachimbo", também transita pela literatura infantil com "Aspino e o boi", uma obra que, segundo a autora, dialoga com "questões raciais" de forma lúdica e acessível. Durante a Flip 2024, ela participou da mesa "Vamos falar sobre questões raciais?", evidenciando o compromisso da editora com a diversidade e a representatividade.
A Poesia de Memória e Paisagem
A outra grande vertente é a poesia de cunho memorialístico e territorial, tendo Rodrigo Cabral como seu principal representante. "Refinaria" é uma coletânea de poemas que busca "captar as transformações da paisagem da Região dos Lagos, assim como as memórias que a envolvem". A obra é, nas palavras do autor, uma tentativa de "ouvir o que esses cenários diziam sobre minhas memórias, sempre borradas e fragmentadas".
Elementos centrais da poesia de Cabral:
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A figueira centenária: símbolo de permanência em meio às mudanças, a árvore da rua onde o autor cresceu é um dos poucos elementos que restam em meio à transformação urbana.
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A Laguna de Araruama: a maior laguna hipersalina do mundo é mais do que paisagem; é metáfora para a salinidade da memória e para a vastidão do tempo.
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A camada pré-sal e a cana-de-açúcar: referências à geologia e à história econômica de Campos dos Goytacazes, cidade natal do autor, que se entrelaçam com sua biografia.
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A relação com o pai: tema recorrente, que humaniza a obra e a conecta com experiências universais de perda e afeto.
A linguagem de Cabral equilibra o regional e o universal, dialogando com influências que vão de José Lins do Rego (especialmente "Água-mãe", com suas descrições de Cabo Frio) a Olga Savary, Roberto Piva, Ferreira Gullar e os beats americanos Allen Ginsberg e Jack Kerouac.
A Literatura Infantil com Consciência Local
Um terceiro gênero que ganha força é a literatura infantil e infanto-juvenil com forte ancoragem na geografia e na cultura local. Jaqueline Brum, presidente da ALACAF, é autora de "Aventuras na laguna", que transforma a paisagem da Região dos Lagos em cenário de fantasia e aprendizado. Renato Fulgoni, também presente na Flip 2024, segue a mesma linha com "O Vira-lata Caramelo", uma narrativa sobre amor e lealdade que tem como protagonista o cachorro símbolo da cultura brasileira.
4. Conclusão: Uma Cena em Refinamento Constante
Cabo Frio tem, em sua tradição literária, o peso e a honra de ter sido o berço do primeiro romancista brasileiro. Mas a cidade não se acomodou nesse legado. Ao contrário, construiu sobre ele uma cena contemporânea vibrante, ancorada em instituições como a ALACAF e em empreendimentos culturais independentes como a Sophia Editora.
O que se vê em Cabo Frio é um movimento literário que se caracteriza por:
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Institucionalização: a ALACAF dá suporte, organização e representatividade aos escritores locais.
-
Profissionalização: a Sophia Editora oferece um caminho de publicação profissional, com distribuição e presença em feiras nacionais.
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Reconhecimento: a conquista do semifinalismo no Jabuti por Rodrigo Cabral prova que a produção local tem qualidade para dialogar com o mainstream.
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Compromisso com a memória: seja pelo resgate histórico, seja pela poesia de paisagem, a literatura cabo-friense está profundamente enraizada no território e na história da Região dos Lagos.
E há ainda espaço para o lúdico, o infantil e o afetivo. A cena é diversa, e nela cabem tanto o rigor acadêmico de Scaldaferri quanto a poesia visceral de Cabral, tanto a crônica cotidiana de Andréa Rezende quanto as aventuras na laguna de Jaqueline Brum.
Cabo Frio prova que é possível fazer literatura de qualidade fora do eixo Rio-São Paulo. Basta ter sal na alma — e palavra na ponta da língua.
Fontes pesquisadas:
Lagos Informa, RJ no ar, Câmara Municipal de Cabo Frio, Solutudo, SOU Região dos Lagos, Prefeitura de Cabo Frio, Booklover, Diário do Rio de Janeiro, G1 Região dos Lagos, Folha dos Lagos.
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
🖥️Código html limpo com o uso de ferramenta própria.



