Berço do renomado intelectual e escritor Afrânio Peixoto, a cidade serrana também serviu de inspiração para obras que narram a imigração europeia e a vida bucólica entre as montanhas fluminenses.
Suíça Brasileira, Terra de Letras: A Cena Literária de Nova Friburgo entre a Tradição Europeia e a Efervescência dos Saraus
Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, é uma cidade que carrega a literatura em seu DNA fundacional. Fundada em 1818 por imigrantes suíços e alemães, a "Suíça Brasileira" nasceu de um Decreto Real — é a única cidade brasileira criada por decreto da coroa portuguesa, o que já lhe confere uma aura de crônica histórica viva. Mas ao longo de dois séculos, Friburgo transformou essa herança burocrática em verdadeira vocação literária.
Diferente de outras cidades da região, onde a literatura se concentra em academias tradicionais ou em movimentos exclusivamente periféricos, Nova Friburgo construiu um ecossistema literário híbrido: convivem aqui a tradição dos "Jogos Florais" (evento poético que já foi um dos mais importantes do país), a força institucional da Academia Friburguense de Letras, o trabalho silencioso de editoras independentes como a Editora Fross, e uma cena de saraus e feiras literárias que mobiliza desde escritores consagrados até estudantes da rede pública.
Este artigo mergulha nessa paisagem literária multifacetada, resgatando as raízes poéticas da cidade, mapeando a atuação contemporânea de seus editores e coletivos, e analisando as temáticas que emergem da produção local — da memória afetiva do território à diversidade de gêneros que vai da autoajuda à poesia de vanguarda.
1. Raízes e Tradição: Dos Jogos Florais à FLINF
A história literária de Nova Friburgo é marcada por um evento singular no contexto brasileiro: os Jogos Florais. Inspirados nos tradicionais certames poéticos da Catalunha e da Provença, os Jogos Florais foram instituídos em Friburgo em 1939 e se tornaram uma tradição anual que atraía poetas de todo o estado. A cidade ganhou o apelido de "Berço dos Jogos Florais", uma referência que até hoje aparece nas apresentações turísticas e literárias do município.
Essa tradição poética atraiu para Friburgo, ao longo do século XX, escritores que viam na cidade serrana um refúgio para a criação. A paisagem de montanhas, flores e clima ameno inspirou tantos autores que a cidade se consolidou como um polo de produção literária no interior fluminense.
Em tempos recentes, essa tradição ganhou um novo capítulo com a criação da FLINF (Festa Literária de Nova Friburgo), realizada pela primeira vez em outubro de 2016. O evento foi pensado para colocar a cidade no circuito nacional de feiras literárias e, desde sua primeira edição, contou com nomes de peso como Zuenir Ventura (que se tornou patrono da festa) e Luís Fernando Veríssimo. A FLINF não é apenas um evento de consumo literário; sua curadoria foi concebida para valorizar "o fluxo de ideias e a troca de experiências" entre autores locais e nacionais, ocupando espaços simbólicos da cidade como a Usina Cultural Energisa, a Academia Friburguense de Letras e a Fundação Dom João VI.
A figura de Zuenir Ventura merece destaque especial. Embora nascido em Alegre (ES), o jornalista e escritor, autor do clássico "1968 – O Ano Que Não Terminou", mantém uma relação de profunda afinidade com Nova Friburgo, onde reside e participa ativamente da FLINF desde sua criação. Sua presença como patrono confere à festa literária uma conexão com a grande reportagem e a memória política brasileira — gêneros que dialogam com a tradição local de crônica e memorialismo.
Outro nome fundamental para a tradição literária friburguense é Simone Brantes. Nascida na cidade, a poeta foi agraciada com o Prêmio Jabuti em 2017 na categoria Poesia com o livro "Quase todas as noites", um feito raro para uma autora que construiu sua carreira fora do eixo Rio-São Paulo. Brantes participou ativamente da FLINF, representando a vitalidade da poesia local em diálogo com a cena nacional.
2. A Cena Contemporânea: Editoras Independentes, Saraus e a Antologia da Cidade
Se a tradição fornece a base, a cena literária contemporânea de Nova Friburgo pulsa em três frentes principais: a publicação independente (com destaque para a Editora Fross e o Selo Editorial Independente Pacheco), os saraus que ocupam as praças públicas, e as feiras literárias que conectam autores locais ao público.
Editora Fross: A voz dos talentos ocultos
Instalada em Nova Friburgo, a Editora Fross se define como uma casa editorial criada com a missão de "dar voz a talentos ocultos". Fundada em 2019, a editora opera em diferentes ramos: literatura, ficção, ação, poesia, autoajuda e espiritualidade, além de livros técnicos e acadêmicos. O perfil da Fross é significativo porque representa uma tendência crescente na cidade: a publicação local não se restringe a um gênero ou estilo, mas busca abarcar a diversidade da produção literária friburguense, desde o romance de ação até a poesia lírica.
A existência de uma editora como a Fross — com capacidade de distribuição para mercados da América do Norte e Europa Ocidental — indica que a produção literária de Nova Friburgo não é meramente amadora ou endógena. Ela dialoga com o mercado, ainda que de forma independente, e projeta autores locais para além das fronteiras municipais.
Selo Pacheco: A antologia como retrato da cidade
O Selo Editorial Independente Pacheco, organizado pelo escritor George dos Santos Pacheco, tem se dedicado a um formato específico e poderoso: a antologia colaborativa. Em 2018, o selo publicou "Nova Friburgo - Contos, Crônicas e Declarações de Amor Vol. II", uma coletânea que reúne 16 autores locais, entre estreantes e veteranos, convidados a escrever histórias que se passassem na cidade.
A lista de autores revela a diversidade da cena local:
| Autor(a) | Estilo/Contribuição na Antologia |
|---|---|
| Anna Braga Asth | Conto/crônica sobre a cidade |
| Carlos Henrique Abbud | Narrativa de memória afetiva |
| David Massena | Prosa de ambientação urbana |
| Déborah Simões | Literatura feminina |
| Flávia Gonçalves | Crônica do cotidiano |
| George dos Santos Pacheco | Organizador e autor |
| Isabelle Sarruf | Narrativa de pertencimento |
| Janaína Botelho | Poesia ou prosa poética |
| Leyla Lopes | Conto de ficção |
| Lohan Lage Pignone | Literatura de aventura/ficção |
| Paula Farsoun | Narrativa de memória |
| Robério José Canto | Crônica histórica |
| Solano Dellamuerte | Poesia marginal/urbana |
| Tereza Cristina Malcher Campitelli | Prosa memorialística |
| Thales Amaral | Ficção contemporânea |
| Thiago Kuerques | Narrativa de ficção |
O volume conta com prefácio de Marcos Marins e foi publicado nos formatos impresso (brochura com orelha, 153 páginas) e e-book, evidenciando a preocupação do selo com a acessibilidade e com as novas plataformas de leitura. A proposta da obra é clara: que os nascidos e moradores de Nova Friburgo "reconhecerão lugares e momentos", enquanto aqueles que não conhecem a cidade "terão a curiosidade aguçada". É uma literatura de pertencimento territorial, um gênero que se tornará recorrente na análise das temáticas locais.
Saraus e a Ocupação dos Espaços Públicos
A cena literária friburguense não se limita ao papel. Em junho de 2025, a Praça do Suspiro, um dos cartões-postais da cidade, foi palco de um Sarau Literário promovido pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ). O evento reuniu cerca de 300 alunos de escolas estaduais da Diretoria Regional Serrana II, com mais de 30 atrações culturais entre apresentações teatrais, declamações de poesia, dança, exposições e oficinas.
A escolha da Praça do Suspiro não foi aleatória. O local é emblemático para a memória afetiva da cidade, e ocupá-lo com literatura foi uma declaração de que a palavra pertence às ruas. As apresentações foram inspiradas na coleção "Literatura a Vapor", distribuída aos estudantes do Ensino Médio da rede estadual, que inclui títulos como "Vozes Livres" e "Com quantas asas se faz um cachorro?".
Este sarau — parte do programa "Educação do Amanhã" — é um termômetro importante da cena literária local: mostra que a literatura em Friburgo não é um privilégio de academias, mas uma prática que envolve jovens, escolas e a comunidade em geral. A subsecretária de Gestão de Ensino da Seeduc, Joilza Rangel, resumiu o espírito do evento: "Quando os estudantes têm a oportunidade de transformar a leitura em expressão artística, como poesia, teatro ou dança, eles constroem sentidos, desenvolvem a criatividade e se reconhecem como sujeitos ativos na descoberta do mundo".
A FLINF e os Espaços de Consagração
A FLINF, que teve sua primeira edição em 2016 e já chegou à terceira edição em 2018, consolidou-se como o principal evento de consagração da literatura local. Em sua terceira edição, em outubro de 2018, o tema foi a "diversidade das línguas faladas pelos povos que vieram e formaram a população de Friburgo" — uma homenagem direta à herança multicultural da cidade, que recebeu imigrantes suíços, alemães, italianos e sírio-libaneses.
A programação da FLINF ocupou múltiplos espaços: o Espaço Arp e Curadoria (com oficinas de leitura e escrita), o Cadima Shopping (Café Literário com lançamentos e mesas de conversa), a Praça Marcílio Dias (programação infantil e apresentações das bandas centenárias Campesina Friburguense e Euterpe Friburguense), além de saraus e rodas de conversa com escritores locais. A diversidade de locais — de shopping centers a praças públicas, de espaços culturais a instituições de ensino — demonstra a capilaridade da cena literária na cidade.
3. Temáticas e Obras: O Território como Personagem e a Pluralidade de Gêneros
A análise da produção literária contemporânea de Nova Friburgo revela uma cena marcada pela diversidade — tanto em termos de gêneros quanto de abordagens temáticas. No entanto, um fio condutor atravessa a maioria das obras: a relação íntima com o território.
O Território como Personagem
A antologia organizada por George dos Santos Pacheco é o exemplo mais explícito dessa tendência. Os 16 autores foram convidados a escrever "histórias que se passassem" em Nova Friburgo, tratando a cidade não como mero cenário, mas como elemento estruturante da narrativa. Essa opção editorial — rara em antologias, que geralmente privilegiam a liberdade temática dos autores — é uma declaração de princípios: a literatura friburguense se quer, antes de tudo, literatura de lugar.
O prefácio de Marcos Marins na antologia sintetiza essa abordagem: "Diferenças de estilo à parte, o prazer da boa leitura é o elemento chave entre textos tão diversos, acrescentando ao imaginário do leitor a experiência de uma literatura fluida e envolvente, numa homenagem mais que merecida" à cidade. A obra, portanto, funciona como um retrato coletivo de Friburgo — suas ruas, seus personagens, seus afetos e suas contradições.
A Poesia entre o Erudito e o Popular
Dois polos opostos, mas complementares, definem a produção poética local. De um lado, Simone Brantes representa a poesia de alto refinamento estético, reconhecida pelo Prêmio Jabuti. Seu livro "Quase todas as noites" (2017) dialoga com a tradição lírica brasileira e insere Friburgo no mapa da poesia contemporânea de qualidade. De outro, os saraus promovidos nas praças e escolas trazem uma poesia performática e acessível, declamada em voz alta por jovens estudantes, que transformam versos em dança, teatro e música.
Essa dualidade — o erudito e o popular — é uma das marcas da cena friburguense. A cidade consegue abrigar tanto uma poeta laureada com o Jabuti quanto adolescentes que, pela primeira vez, sobem a um palco para recitar um poema. A literatura, aqui, é ao mesmo tempo distinção e pertencimento.
Autoajuda, Espiritualidade e Literatura de Transformação
Outro gênero que encontra espaço significativo em Friburgo é a literatura de autoajuda e desenvolvimento pessoal. A Editora Fross, em seu catálogo, dedica uma linha específica à "autoajuda e espiritualidade". Embora os resultados de busca não detalhem títulos específicos nesse segmento, a própria existência dessa linha editorial indica uma demanda local por obras que dialoguem com a busca de sentido, o bem-estar e a transformação interior — um fenômeno nacional que encontra eco na produção independente da cidade.
A Literatura Infantil e Juvenil nas Escolas
A coleção "Literatura a Vapor", distribuída pela Seeduc-RJ, trouxe para as escolas de Friburgo títulos como "Vozes Livres" e "Com quantas asas se faz um cachorro?". Embora esses livros não sejam, necessariamente, de autores locais, eles inspiram releituras criativas pelos estudantes, que transformam a leitura em performance. O sarau na Praça do Suspiro teve, entre seus destaques, a performance "Vozes e ritmos da liberdade", do CIEP 277, baseada no livro "Vozes Livres". Essa relação entre leitura e expressão artística é um vetor importante da cena literária local, formando novas plateias e, potencialmente, novos autores.
4. Conclusão: Uma Cena em Movimento, Entre a Memória e a Invenção
Nova Friburgo prova que uma cidade pode ser, simultaneamente, guardiã de uma tradição centenária e celeiro de experimentação contemporânea. Os Jogos Florais e a poesia de Simone Brantes convivem com os saraus estudantis na Praça do Suspiro; a Academia Friburguense de Letras e a Editora Fross operam em paralelo, cada qual à sua maneira, na tarefa de dar voz aos escritores locais.
O que une essas experiências díspares é a consciência do território. Seja na antologia de George Pacheco, que transforma a cidade em personagem coletivo, seja nos versos declamados por jovens na praça, há em Friburgo uma literatura que se quer enraizada — que não foge do local para alcançar o universal, mas que acredita que o universal se revela justamente na espessura do cotidiano de uma rua, de uma montanha, de uma memória.
Os desafios, no entanto, persistem. A cena literária independente ainda carece de maior visibilidade e de políticas públicas de fomento à circulação das obras. A FLINF, embora exitosa, tem um histórico de edições esparsas (2016, 2018), e não há informações atualizadas sobre edições mais recentes. A continuidade do evento é fundamental para que a cidade mantenha seu lugar no circuito nacional.
Mas o que os saraus de 2025 mostraram é que a literatura em Friburgo está viva — e está, sobretudo, nas mãos dos jovens. Enquanto houver estudantes dispostos a transformar um livro em dança e uma praça em palco, a "Suíça Brasileira" continuará a merecer seu título de Terra de Letras.
Fontes pesquisadas:
G1 Região Serrana (2016), SNEL (2016), Nova Friburgo em Foco (2016), Eu, Rio! (2018), Everand (2018), Clube de Autores (2018), PC Notícias (2025), Consed (2025), B2USA/B2Chile (perfil corporativo Editora Fross).
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
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👥 Pesquisa: Guilherme, Curadoria: Silvio
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