parte_i_capitulo_03
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| + | Logo terminada a missa, os dois jovens seguiram pela Avenida Goiás sentido Avenida Brasil. Passaram três minutos antes que a jovem com feição pudica iniciasse o diálogo com uma pergunta: | ||
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| + | — Ria de quê? | ||
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| + | — Na missa? Não sei direito, achei graça... | ||
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| + | — Achou graça e começou a rir sem qualquer constrangimento? | ||
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| + | — Exato! Como você pode ver. | ||
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| + | — O que pode passar de tão engraçado na cabeça de alguém ao ouvir o Evangelho? — Maria fez uma pausa, e interrompeu antes que o rapaz respondesse — Por favor, não me responda! | ||
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| + | Alguns segundos, retomado o fôlego perdido pelos passos rápidos, Maria continuou: | ||
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| + | — Você mora por aqui? | ||
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| + | — Não. Cheguei aqui ontem ao meio-dia, me hospedei num hotel na Avenida Brasil, próximo ao que vocês chamam Distrito Industrial. | ||
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| + | — E já na Igreja? | ||
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| + | — Sim, é um costume que aprendi com o Tio. | ||
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| + | — Bom costume... e sua família? | ||
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| + | — Sem família. Vim sozinho... — hesitou o jovem, distanciando o pensamento — Não tenho família, só o Tio. | ||
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| + | — Seu tio é sua família, então. Pense positivo. | ||
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| + | — Claro, é tudo o que’eu tenho. E você, mora por aqui? — perguntou o jovem por nada lhe passar na mente. | ||
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| + | — Não. Moro em Goiânia, mas trabalho e estudo aqui. | ||
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| + | — E vai para missa também... | ||
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| + | — É sempre vou, mas em Goiânia. Hoje trabalhei até tarde, e se'eu fosse pra Goiânia, não chegaria a tempo de ir à missa lá. | ||
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| + | — Posso deduzir algumas coisas? | ||
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| + | — O quê? | ||
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| + | — Se me permite, eu digo que você é alguém muito extrovertida e alegre, mas hoje trabalhou muito, continua com as roupas que trabalha, e como está cansada mantém esta cara fechada, séria. | ||
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| + | — Nossa! Estou tão mal assim? | ||
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| + | — Vou ser sincero, está sim? | ||
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| + | — Ok! Senhor Sincero. Qual é seu nome? | ||
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| + | Ao longe, o rapaz observou um senhor que se aproximava lentamente. Em sua camisa um crachá com o primeiro nome em itálico: Alexandre | ||
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| + | — Alex, meu nome é Alex. — respondeu o jovem dando entonação aguda ao “a”. | ||
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| + | — Prazer Alex, o meu é... | ||
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| + | — Maria. — Interrompendo-a, | ||
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| + | — Como sabe? | ||
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| + | — É a desculpa de sempre... li num bordado, no crachá do seu trabalho, em algum objeto pessoal... Bem, pra ser exato, vi quando retirou seu crachá do bolso das calças e o colocou na bolsa de material escolar; vejo que também é universitária. | ||
| + | |||
| + | — É mesmo observador. — comentou Maria enquanto procurava na fisionomia do rapaz algum traço de sua personalidade. | ||
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| + | — Sou sim, e atrevido também — afirmou Alex enquanto mantinha armado um grande sorriso no rosto. | ||
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| + | Os jovens conversaram durante todo o percurso entre a Igreja e o Palácio da Cultura. Levando treze minutos. Alex esperou que o ônibus partisse, então seguiu a um longo degrau formado pela elevação do pavimento do prédio, e ali esperou. | ||
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| + | Os ônibus passaram um a um. Já a meia-noite o motorista do último ônibus desceu e informou ao jovem que aquela era a derradeira condução para Goiânia naquele dia. | ||
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| + | Alex disse secamente: | ||
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| + | — Aguardo uma amiga. | ||
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| + | * * * | ||
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| + | À noite quando o centro se tornou deserto e Alex já não acreditava ver ali qualquer alma viva, surgiu no horizonte uma silhueta engraçada de passos rápidos e ginga ébria. | ||
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| + | O homem que se definiu nos contornos da silhueta, tinha rosto alegre e transmitia uma confiança até então nunca sentida por Alex. | ||
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| + | Um cumprimento rápido e o desconhecido contornou uma latinha de cerveja e continuou seu percurso ainda quatro metros até que Alex o interrompesse: | ||
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| + | — Aonde vai? | ||
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| + | O sujeito virou sem titubear e respondeu: | ||
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| + | — Vou a uma boate. | ||
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| + | — Vai dançar? — indagou Alex com grande e inesperado entusiasmo. | ||
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| + | — Não, não vou... | ||
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| + | — Então o que vai fazer lá? — insistiu. | ||
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| + | — Tenho que reencontrar alguns amigos. | ||
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| + | — Por que não dança? | ||
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| + | — Não sei... — o andarilho pensou em responder, e se vendo em interrogatório replicou — Ei! O que você está fazendo aqui? | ||
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| + | — Eu? — perguntou Alex a si mesmo — Bem, eu... estou esperando uma amiga. | ||
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| + | O desconhecido percebendo haver algo obviamente estranho, insinuou: | ||
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| + | — Esperando uma amiga... sei... Sei bem o relacionamento que você deve ter com ela... | ||
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| + | — Quê? — questionou Alex. | ||
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| + | O desconhecido se abriu em gargalhadas dissimuladas. | ||
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| + | — O que você está imaginando? — perguntou Alex. | ||
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| + | — Nada, ainda... Conte mais um pouco. | ||
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| + | — Contar o quê? Eu conheci uma garota na Igreja, a acompanhei até o ponto e... — Alex calou ao perceber o quanto aquilo não fazia muito sentido... | ||
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| + | Vendo os traços passionais no rosto de Alex, o transeunte da noite, lembrou de uma miraculosa história ouvida pelas madrugadas. | ||
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| + | — Meu nome é Jorge, e o seu? | ||
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| + | — Alex. | ||
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| + | — Bem, Alex. Cuidado com as mulheres da noite... O que vai fazer agora? | ||
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| + | — Esperar. Ela vem de ônibus. | ||
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| + | — Ônibus. Os ônibus não voltam antes das cinco horas. O que acha de caminharmos um pouco; me lembrei de uma história. | ||
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| + | — Adoro histórias! - exclamou Alex. | ||
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| + | — Então me acompanhe, e preste atenção, pois a história que tenho pra contar é verídica, aconteceu com a amiga da empregada da vizinha de Teresinha, uma gracinha de dezenove anos que conheci numa festa em Goiânia, a qual infelizmente nunca mais vi. Ela me disse sobre este fato que aconteceu aqui em Anápolis, no ano passado. Os acontecimentos que envolvem os instantes em que esta pequena narrou a mim tal história são tão surpreendentes quanto à própria narrativa. Porém, minha modéstia me inibe, e por isto passo a contar apenas o que ouvi: | ||
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| + | Isabel dizia palavras frias em sua tentativa de afastar de si, Juraci, jovem acanhado de comportamento ilibado... | ||
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| + | Juraci mantinha o sorriso e a amizade intensa enquanto ouvia atentamente as palavras abrasivas ditas por sua paixão. | ||
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| + | [...] — não te quero próximo, alimentando seus desejos, alimentando seus desejos e ideias de que pode mudar quem eu sou. | ||
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| + | Juraci ouviu estas últimas palavras e partiu... | ||
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| + | Seis meses passam rápido, e passou... Demoraram horas, dias, talvez semanas para que a imagem do jovem apagasse quase que completamente das lembranças da pequena. E esta, solitária num banco de um parque se pusesse, a orar em seus pensamentos: | ||
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| + | Como por milagre um senhor de vestes velhas e sorriso agradável aproximou-se e assentando junto à moça queixou: | ||
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| + | — Tantas queixas, tantas queixas! | ||
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| + | — Não me queixo com você! — replicou Isabel sem se tocar que suas orações eram imperceptíveis a quem a observava. | ||
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| + | E o visitante olhando para o céu suplicou: | ||
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| + | — Dê-me paciência. | ||
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| + | Isabel se levantou incomodada pela presença, quando o velho a interrompeu: | ||
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| + | — Espere! O que você queria? Asas, trilha sonora? Estou aqui para responder suas perguntas. | ||
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| + | — Deus!? — perguntou Isabel em tom quase de desespero. | ||
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| + | — Não, Augustus o mensageiro a seu dispor. | ||
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| + | — Não mereço, não mereço! Perdão Senhor — suplicava a garota. | ||
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| + | — Ah, é certo que não merece, contudo, tua fama já está crescendo, ninguém faz mais nada lá em cima. Você pede, pede, pede, agradece um pouco e pede mais... | ||
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| + | — Pensei que estivesse sozinha — disse a jovem em tom de lamento. | ||
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| + | — Como pode? Um ser não conseguiria reclamar tanto sozinha, sem acreditar haver alguém no oculto a assistir. E já continuando de modo a terminarmos este papo o mais rápido possível. Poderia me dizer o que mais você quer? | ||
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| + | — Eu? Nada! Tudo é lindo, é maravilhoso, | ||
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| + | — Poupe-me deste papo de quem viu anjo, e solte as reclamações. | ||
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| + | Isabel pensou alguns segundos enquanto Augustus resmungava baixo, e então falou: | ||
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| + | — Minha vida... sei que a quero, sei que é um dom de Deus, só que sofro, porque tenho muitas dificuldades. Eu vivi muitas coisas que me deixaram longe de Deus, e eu ofendi meus pais, eu roubei, me entreguei a luxúria, eu... | ||
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| + | Isabel é interrompida por Augustus: | ||
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| + | — Eu sei! Sou um anjo se você precisa se confessar, procure um padre, tem uma Igreja há duas quadras. | ||
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| + | — Eu sou evangélica! — exclamou Isabel. | ||
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| + | O velho impaciente advertiu: | ||
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| + | — Eu sei, eu sei! Não existe nada que eu não saiba sobre você. Você vai ou não vai me fazer uma pergunta? | ||
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| + | Isabel olhando o horizonte continua a falar em tom de lamento: | ||
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| + | — Eu busco o caminho certo, mas sou fraca, sou facilmente seduzida pelos prazeres mundanos — o velho bocejava e Isabel continuava — sou volúvel, sou pecadora... — depois de uma pausa como se suspirasse – Que seja! Quero saber o porquê do sofrer? Se Deus nos ama tanto por que permitiu que eu vivesse tudo aquilo? Por que ele me abandonou? Por que sofri? Por que... | ||
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| + | Augustus a interrompe: | ||
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| + | — Uma de cada vez! | ||
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| + | — Tudo bem, — disse Isabel — responda, por que Deus me deixou sozinha? | ||
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| + | — Como ousa dizer que Ele lhe deixou sozinha! — o velho se irritou. | ||
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| + | — Sou eu que faço as perguntas? — replicou Isabel. | ||
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| + | — Então se insiste nisto, devo te relembrar algumas coisas. Lembra quando partiu de casa, não deu a mínima aos sentimentos de sua família, preocupando-se unicamente com você. Como é egoísta, vivendo só por seus caprichos, trocando suas palavras, seu achar, e até seu corpo por um agrado que correspondesse unicamente a sua satisfação, | ||
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| + | Intrigada Isabel o interrompeu com uma pergunta: | ||
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| + | — Quem? | ||
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| + | — Aquele moreno, o... De cabelo grande, o... | ||
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| + | — Fábio? — perguntou Isabel | ||
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| + | — Não este não. | ||
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| + | — Alberto? | ||
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| + | — Também não! | ||
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| + | — Eduardo? | ||
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| + | — Não, não, não... | ||
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| + | — Luís? | ||
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| + | — Claro que não! | ||
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| + | — Natanael? | ||
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| + | — Você lembraria, se concentrasse nos últimos seis meses. | ||
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| + | — Estou falando dos últimos seis meses — disse Isabel. | ||
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| + | O velho se colocou de joelhos no chão, levantou os olhos para o céu e orou: | ||
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| + | — Senhor por que insiste? | ||
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| + | Voltando a se sentar, continuou: | ||
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| + | — É ju ou jo... Juvenal, não, não... | ||
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| + | — Juraci! — exclamou Isabel. | ||
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| + | — É esse! — gritou o velho, antes de continuar — Você e o Juraci poderiam ter sido muito felizes, mas você... não aceitou... | ||
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| + | — Você tem certeza que está falando da pessoa certa? | ||
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| + | — Claro que tenho! Nós anjos nunca erramos — disse Augustus em tom esnobe. | ||
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| + | — E eu posso fazer algo? — perguntou Isabel. | ||
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| + | — Deve! — respondeu o velho — A partir de hoje terá que ser feliz, pois Ele disse que não podemos mais te carregar, esta é a sua vida, se você precisar de ajuda, só teu anjo da guarda poderá interceder e agir por você. Suas preces serão ignoradas, porque você é dada como uma... — o velho pensou — ... você é dada como uma... — pensou mais um pouco — Como uma chata! | ||
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| + | Então o velho se levantou, e fitando-a disse aos berros: | ||
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| + | — Seu único objetivo é ser feliz e fazer os outros felizes. Compartilhar o verdadeiro amor de Deus, este é seu único trabalho para o resto de sua vida. Adeus! | ||
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| + | E assim o anjo partiu e deixou Isabel a pensar. Minutos depois, não muito longe, Augustus e Juraci se encontravam. | ||
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| + | — Eu disse tudo o que você me falou, e acrescentei algumas palavrinhas que, a meu ver, possa ajudar — disse Augustus. | ||
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| + | — Que palavrinhas? | ||
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| + | — Só palavrinhas no contexto; disse que ela devia ser feliz tinha de ser feliz, pois era o que Deus quer pra ela... Coisa e tal. | ||
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| + | — Será que não estamos cometendo um pecado? — questionou Juraci. | ||
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| + | — Não mentimos. Vá pra casa, ela deve te ligar. | ||
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| + | — Não sei como posso lhe agradecer? | ||
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| + | — Comece-me pagando os 100 reais do combinado. | ||
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| + | Naquele dia, já às vinte e três horas da noite, na casa de Juraci, o telefone tocou, era Isabel que o cumprimentou com grande alegria. O jovem manteve certa tristeza consequência da culpa. Ela nunca me ligaria por sua vontade, pensava Juraci. Mas a pequena o empolgava, e entre “saudades” e elogios, uma só, foi à suma: valeu muito os 100 reais gastos. | ||
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| + | Marcaram um encontro num parque. Lá sentados juntos, ficaram a falar sobre as coisas boas que poderiam fazer. E neste meio chega-pra-cá, | ||
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| + | — Estou pronta... quero! — disse Isabel. | ||
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| + | Juraci permaneceu quieto então a jovem continuou: | ||
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| + | — Não me importo que você alimente seus desejos. Verdade é que eu gosto. É bom saber que você acredita em mim, em meu caráter. | ||
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| + | — Bom, bom mesmo — disse Juraci. | ||
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| + | — Então acredito hoje, que possamos ser felizes... — Isabel deu uma pausa e continuou — Podemos ser felizes, irei me aplicar em mudar... em deixar de ser tão fútil... | ||
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| + | — É... ê? — perguntou Juraci. | ||
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| + | — Ê... fale algo! | ||
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| + | — Falar? — questionou Juraci — Falar o quê? | ||
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| + | Falar de novo aquilo — Isabel tentava lembrá-lo. | ||
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| + | — Aquilo? — o rapaz ficou intrigado. | ||
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| + | — É! Aquilo que você já disse, não seja imbecil. | ||
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| + | Então o jovem respirou profundamente e disse: | ||
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| + | — Eu quero namorar você, e você quer namorar comigo? | ||
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| + | E Isabel disse: “Sim”, e eles se abraçarão e se beijaram, e... foi isto. Eles viveram felizes... | ||
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| + | Até o outro fim de semana quando Juraci e Isabel chegaram à Igreja. Isabel que se empolgara à perda do receio quase traumático que tinha por aquele ambiente sacro, seguiu até o bazar da Igreja onde procurava comprar uma Tau, um pequeno T conhecida cruz usada por São Francisco de Assis. | ||
| + | |||
| + | Enquanto comprava seu primeiro símbolo cristão, teu jovem amor foi surpreendido por um encontro inesperado. | ||
| + | |||
| + | — Juraci! — disse Augustus empolgado. | ||
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| + | — Que faz aqui? — questionou o interlocutor. | ||
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| + | — Venho participar da missa. | ||
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| + | — Aqui? Não pode! Aqui não. Isabel está aqui. | ||
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| + | Mas a advertência era tardia. A jovem já os observava... Augustus sorriu e disse com simpatia: | ||
| + | |||
| + | — Vim ver como estão. | ||
| + | |||
| + | Isabel fez uma cara estranha, como se acreditasse, | ||
| + | |||
| + | — Se me ama de verdade, então pode saber. Eu paguei 100 reais para que ele lhe dissesse tudo aquilo no parque. | ||
| + | |||
| + | Isabel ficou estática por quatro segundos, então deu as costas para Juraci, e se afastou enquanto ouvia as súplicas do rapaz para esperar. Mas ela desprezou as palavras do jovem. Ela o desprezou. | ||
| + | |||
| + | ” | ||
| + | |||
| + | |||
| + | |||
| + | Alex ouvia a história absorvendo dela o pouco que podia compreender. Jorge interrompeu a narração e o questionou: | ||
| + | |||
| + | — O que acha? | ||
| + | |||
| + | — É justo, ele a enganou. | ||
| + | |||
| + | — Mas pela primeira vez Isabel poderia ser feliz. | ||
| + | |||
| + | — Ser feliz com alguém que a enganava? — questionou Alex. | ||
| + | |||
| + | — Não, mas sim ser feliz com alguém que verdadeiramente a amava. | ||
| + | |||
| + | — Eu não entendo porque ela deveria. Corresponder a um amor não é uma obrigação. | ||
| + | |||
| + | — Mas respeitar é. | ||
| + | |||
| + | — Ela deu as costas pra ele. Se não tivesse feito isso teria dito algo terrível, assim, ela o respeitou. | ||
| + | |||
| + | — Mas as coisas não são assim... — Jorge fez uma pausa, continuou caminhando enquanto seu pensamento o afastava dali. | ||
| + | |||
| + | Alex o trouxe de volta: | ||
| + | |||
| + | — Tem algumas coisas que eu não sei ainda, não é? | ||
| + | |||
| + | — Sim, você não sabe o mau gosto que Isabel tem para homens. | ||
| + | |||
| + | — Mau gosto para homens, como é isto? | ||
| + | |||
| + | — Antes que eu continuei a história para você compreender tudo deixe eu te contar um enigma. | ||
| + | |||
| + | — Enigmas? Ótimo, eu adoro charadas. | ||
| + | |||
| + | — Não é bem uma charada, nem propriamente um enigma. Responda-me o que acredita ser certo. Um jovem encosta seu carro numa esquina escura da cidade, naquelas que se encontram prostitutas baratas que cobram uma mixaria e fazem de tudo. Este jovem já foi perguntando quanto iria custar se ela o acompanhasse a um motel. A prostituta, uma garota de poucas esperanças e nenhum sonho disse-lhe o modesto valor que cobrava por uma noite de programa. O jovem a conduziu ao motel e lá... bem, na manhã seguinte o jovem sem dar explicações pagou a garota mais do que o triplo do combinado. Naquela mesma noite outro jovem, um pouco mais extrovertido que o primeiro, parou o carro em frente à casa de um colega da faculdade onde acontecia uma festa. Ele se aproximou de uma garota sonhadora que caminhava pela multidão, e a chamou para um canto. Lá, ele a encheu de promessas fáceis, a beijou, e ao amanhecer saíram d'um motel. Então. Qual jovem é mais bem-visto pelas “pessoas”, | ||
| + | |||
| + | — Não me enquadro em nenhum dos jovens citados, mas o primeiro saiu com uma prostituta. — um muxoxo de nojo foi sussurrado por Alex | ||
| + | |||
| + | — Uma prostituta, sim. E se'eu te contasse que na tarde seguinte, aquela prostituta se deitou num colchão jogado no chão do quartinho que morava, e por se sentir valorizada, d'uma forma nunca sentida, se colocou a sonhar. Viu-se em um escritório, | ||
| + | |||
| + | — Pensando assim... você afirma que o garoto que saiu com a prostituta a transformou numa sonhadora, enquanto o outro transformou uma sonhadora numa garota digamos fútil? | ||
| + | |||
| + | — É uma afirmação um tanto questionável. Os homens que saem com as prostitutas de certa forma contribuem, incentivam elas a continuarem nesta lida. Eu foco a valorização, | ||
| + | |||
| + | — Não consigo julgar isto, o que é? | ||
| + | |||
| + | — Alienação, | ||
| + | |||
| + | |||
| + | |||
| + | “ | ||
| + | |||
| + | Juraci e Augustus participaram da missa e na hora que saia da Igreja, Isabel entrava na boate onde um jovem de rosto alegre e vigoroso se aproximou: | ||
| + | |||
| + | — Boa noite? | ||
| + | |||
| + | — Péssima — respondeu Isabel. | ||
| + | |||
| + | — Quer conversar? | ||
| + | |||
| + | — Não. | ||
| + | |||
| + | — Então vamos só beber. | ||
| + | |||
| + | Isabel bebeu, dançou e ao fim da noite estava entre beijos e amassos num canto escuro da boate. | ||
| + | |||
| + | |||
| + | Enquanto isto numa rua escura da cidade: | ||
| + | |||
| + | — Sabe que ela não é sua? — questionou Augustus a Juraci. | ||
| + | |||
| + | — Sei — respondeu Juraci | ||
| + | |||
| + | — Também sabe que não tem mais obrigação para com ela? | ||
| + | |||
| + | — Também sei. | ||
| + | |||
| + | — Então por que insiste? | ||
| + | |||
| + | — Porque a amo... | ||
| + | |||
| + | — Como pode amá-la, se ninguém mais a tem estima. Nem mesmo sua família, você sabe. | ||
| + | |||
| + | — Se ela soubesse que tudo o que fiz foi por seu amor... — Juraci se sentou no meio fio e como os olhos cheios de lágrimas suplicou a Augustus sua intercessão. | ||
| + | |||
| + | — Você parece Isabel suplicando por misericórdia depois de cada erro. — disse Augustus mascarando a dor em sua consciência. Vacilou alguns segundos que pode, mas logo se virou para Juraci e continuou — Bem, lhe digo pela última vez. Desista, ela não merece você. | ||
| + | |||
| + | — Eu a amo. — sussurra Juraci. | ||
| + | |||
| + | — É eu sei... Então lhe dou as últimas instruções. Isabel voltou àquela boate. Desta vez entre! Ela deve estar com algum daqueles caras cujo nome, quem sabe? Deve transar com ele, e só a misericórdia de Deus poderá tirá-la desta vida. | ||
| + | |||
| + | — A misericórdia d'Ele é infinita — disse Juraci | ||
| + | |||
| + | — Toda misericórdia d’Ele agora, é você... Vá! Sem medo, que Deus te acompanhe... os anjos não entram lá. | ||
| + | |||
| + | |||
| + | Juraci caminhava com dificuldade entre as pessoas, naquele ambiente que o causava ojeriza. Quando chegou ao extremo oposto a porta, virou por intuito irracional e viu Isabel sendo arrastada para fora por um homem. Com dificuldade retornou o mais rápido que pode. Chegando à rua viu o carro partir para direção norte. O veículo tomou um retorno a 50 metros e Juraci atravessando a rua se colocou à frente para interceptá-lo. | ||
| + | |||
| + | O carro brecou, e o motorista colocando sua cabeça para fora do veículo, insultou o jovem e mandou que saísse. | ||
| + | |||
| + | — Isabel! — gritava Juraci. | ||
| + | |||
| + | Ela está comigo, vai caçar outra! — disse o rapaz ao volante. | ||
| + | |||
| + | — Isabel, quero falar com você! | ||
| + | |||
| + | O carro continuou seu percurso em primeira marcha atropelando lentamente Juraci que se colocou sobre o capô. O rapaz que dirigia o carro, então parou, desceu e segurando Juraci pelo pescoço o ameaçou: — Você quer morrer? Então toma! | ||
| + | |||
| + | Após uma forte surra Juraci foi jogado em direção a calçada. Chocando a cabeça contra o meio-fio perdeu a consciência. | ||
| + | |||
| + | Às cinco horas quando Isabel saia do Motel, Juraci entrava no centro cirúrgico de onde viria a morrer alguns minutos depois. | ||
| + | |||
| + | ” | ||
| + | |||
| + | |||
| + | Ao final da longa narrativa, Jorge calou-se. Já estavam em frente à boate. Alex ficou intrigado, sem compreender o significado daquela narrativa. Houve apenas silêncio entre os dois. Silêncio que perdurou por quase dois minutos, até ser quebrado por Alex: | ||
| + | |||
| + | — Ê? — questionou Alex... | ||
| + | |||
| + | — Não se apaixone, para que o preço de seu sangue não seja a sua ruína... — disse Jorge. | ||
| + | |||
| + | — Uma interpretação de Eclesiástico capítulo nove... | ||
| + | |||
| + | — A coisa mais corajosa que um homem pode fazer, é se apaixonar por uma mulher... | ||
| + | |||
| + | — Isto já foi dito por alguém... — replicou Alex. | ||
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| + | — É já foi mesmo... — Jorge olhou em direção a boate e apontou a uma mulher que estava na esquina. — Vê aquela mulher na esquina. | ||
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| + | — A prostituta? — perguntou Alex. | ||
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| + | — Sim, ela... Aquela é Isabel. | ||
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| + | Alex fixou os olhos naquela mulher enquanto sentia uma leve vertigem. | ||
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| + | — Por alguns trocados terá uma péssima noite de sexo. É uma mistura de amassos e esfregação, | ||
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| + | Jorge cruzou a rua. Alex permanecia olhando a mulher na calçada, em seu semblante um misto de espanto e curiosidade. Já distante o nobre narrador ouviu um berro; um questionamento que a seu modo se fazia bastante insistente e estúpido: | ||
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| + | — Vai dançar? | ||
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| + | — Não meu jovem... — respondeu Jorge percebendo que em Alex só reinava a inocência — Não há dança há estas horas. Apenas bêbados e as histórias que procuro. Volte para casa menino, se é que tem uma... | ||
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| + | Jorge sorriu amargamente, | ||
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| + | [[parte_i_capitulo_04|Continuar a leitura... >>]] | ||
