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Narrativa de Eduardo

Aquele final de semana foi sem dúvida o instante mais revelador das últimas décadas. Em meio compra das rosas, e a encomenda do Buffet, Alex me contou sobre toda sua vida, o hospício, seu primeiro amor, o encontro com minha mãe, e seu reencontro trinta anos depois.

Eu me impressionava, e pela primeira vez, naquela noite de sábado, tinha a certeza que Alex era um verdadeiro homem. Sua natureza era mais digna do que se poderia aceitar. Sua castidade e fidelidade davam ao rapaz o verdadeiro ar romântico. Cada amor vivido por ele tinha uma singularidade, como se fosse o primeiro e o mais sublime... Digam tudo o que quiserem menos que algum dia ele foi vulgar...

Eu o admirava e me envergonhei quando recebi no domingo à tarde, uma ligação de Augusta dizendo que minha mãe ficara toda a noite com um rapaz, e que estes saíram da boate junto e ainda não deram notícias.

Eu pressentia algo, e não me preocupava com minha mãe, tão somente com Alex que naqueles instantes preocupava-se em colocar pedras de gelo nos vasos de tulipas...

Sabia que ele não suportaria aquilo...

Sei o que minha mãe precisava, não me envergonho disso, todos nós precisamos de prazer, de emoção, de sexo, o que é patético, estúpido e maldito é o porquê todas as mulheres procuram canalhas para se apaixonarem. Vai entender? Mas de algumas verdades desta história, uma é um verdadeiro axioma... Mulheres não gostam de homens bonzinhos... Então se é assim, que se dane tudo, e se é um final que querem ter, um final vocês terão... Alex morto por não ter embriagado seu amor com vinho. Morto por não ter dado a está história o ar de luxúria e erotismo que todos querem. E minha mãe infeliz e sozinha por sonhar com seu hombre fuerte y caliente que a pegasse nos braços e lhe desse muito prazer...

Bem ela o teve, e o que ganhou?... Quem sou eu para falar, sou fruto disto, sou fruto deste fetiche, deste bruxo. Que se conclua então a história.

* * *

Narrador Eduardo 

Um estranho cansaço acometeu Maria que decidiu então por voltar para casa de Léo, encontrar Augusta já aos primeiros minutos da noite daquele domingo. E o que fazer? Levar ao médico uma cinquentona com aparência de vinte? Melhor não, melhor voltar para casa, para o alimento de sua mocidade, para Alex.

E quando Maria chegou e viu a casa toda arrumada, com tulipas, lembranças; sentiu-se reanimada, e seus males sumiram ao ver o semblante apaixonadas de Alex, e ela que tinha quase vinte quatro horas de segredos, fingiu esquecê-los todos, ao abraçar seu eterno admirador.

Neste instante Alex a pediu em casamento, entregando-a uma bela, aliança presente de Léo.

Maria segurando a joia caminhou pela sala enquanto Alex esperava ansioso um sim; mas a alma da jovem se remoía as lembranças das últimas horas, e tão envergonhada queria partir, mas quando chegava a porta sentia forte dor... talvez reumatismo comum a idade avançada, talvez dor do coração... e o que aconteceu... bem, ela disse sim e eles se abraçaram, e Alex a desejava, e queria, mas a jovem já saciada pediu-lhe tempo. Pediu que esperassem pelo casamento que ocorreria em quatro semanas.

E Alex sonhava como nunca sonhara em toda sua vida, segundo a segundo, em sua mente via Maria, só Maria... E em meio a risos e bagunças havia a melancolia e os telefonemas escondidos de Maria.

Tic-tac passa tempo... Tic-tac tempo passa.

Num domingo nublado e triste, Alex esperava na Igreja junto a todos os seus amigos. Léo via ali o instante sonhado em sua vida realizar-se. Tudo estava minuciosamente pronto. Eu mesmo havia cuidado de cada detalhe. Todos os pormenores discutidos com Alex, e repassados a minha mãe, que não demonstrava qualquer importância... Ela não impediu nada, e até me ajudou, não fazendo exigências.

Lá estava eu diante do quarto. Segurando a filmadora esperando minha mãe para registrar todos os acontecimentos do dia; e esperando-a para acompanhá-la ao altar.

Em alguns segundos toda a história terminaria, um estranho telefonema em que minha mãe se prendia a mais de trinta minutos era o único obstáculo para este desfecho...

Mas eu não podia permitir aquilo, eu estava tão nervoso que nem me lembro como desliguei ou se desliguei a câmera, apenas lembro que arrombei a porta e adentrei ao quarto... E lá estava minha mãe ao telefone. Conversava tranquilamente enquanto percorria o decote do vestido com a ponta do dedo, acariciando delicadamente a parte exposta de seus seios. Um monte de pensamentos me assombrava, lancei a câmera sobre a cama e aproximei de minha mãe:

— Tenha algum moral! — Gritei.

Minha mãe pediu desculpas ao telefone e desligou, então se levantou, me apontou o dedo, dizendo que’eu não tinha o direito de falar assim com ela. Eu não tinha mesmo, só que ... continuei. Alguém tinha que fazê-lo.

— Você não o ama... — continuei.

Parei e me sentei na cama a chorar. Eu não tinha uma resolução para esta história. Alex amava minha mãe, contudo ela não o amava. E ele não viveria sem ela, mas ela não o amava, não o amava, não o amava.

Evitar o casamento enlouqueceria Alex e permiti-lo não era justo. Assim eu me torturava questionando o que fazer?

Neste instante, minha mãe se curvou e acariciou-me a cabeça. Por Deus como eu precisava daquilo.

— Filho, o que quer que eu faça?

Eu não respondia, eu não sabia o que responder, então apenas me curvei e a ouvi.

— Eu não o amo. Ele é meio idiota, nunca me faria feliz. Eu procuro emoção, prazer, e ele um sorriso aberto quando chegar de casa; um banho de mangueira no jardim; um café da manhã com a família. E hoje eu sei por que ele quer isto. Ele quer isto porque é imortal. Ele nunca vai morrer, então ele pode passar os próximos cem anos a cozer macarrão instantâneo, e a assistir a Sessão Coruja. Mas e eu? Vou morrer e eu quero ter vivido aquilo que eu pude da melhor forma que eu puder. Em todos estes anos a única coisa boa que recebi dele, foi o último final de semana que estive em Goiânia. É aquele final de semana, em que’eu jovem, pude aproveitar, pude suar, pude namorar e fazer sexo com aquela despreocupação de quem já viveu tudo o que queria da vida. Eu não o amo, mas eu não consigo ser jovem longe dele. Sou grata a ele, e vou me casar com ele e... — Maria fez uma pausa, buscando mais motivos —  Deixa pra lá.

Minha mãe se levantou e caminhou até a porta, então disse-me mais:

— Ele me ama, ele pode enlouquecer se eu não chegar lá. Vamos filho! Vamos realizar o desejo dele.

Um ódio enorme tomou minha alma, eu olhava aquela mulher que me amamentou, e a queria nos piores dos castigos e por isto levantei-me e o ofereci meu braço como um cavalheiro, acompanhei até o carro. Dispensei o chofer dizendo que se tratava de um sonho meu. Minha mãe me apoiou, nos responsabilizamos por qualquer problema, e segui levando minha mãe a rumos incertos. Segui para rodovia e acelerei enquanto a ouvia gritar, e gritar. Eu a abandonei numa estrada deserta horas depois, no mesmo instante que Alex saia da Igreja a correr.

E Alex já informado pela empresa de locação de carros, do desaparecimento deste, entrou em casa desesperado; a revirou toda, e neste instante de confusão foi a piscina, a contornou e retornou a casa, sempre correndo. No quarto verificou se o telefone estava funcionando e lá esperou por alguma ligação. A sua frente a filmadora ainda ligada mostrava em sua pequena tela de cristal o dizer Tape End.

Alex hesitou pegá-la, mas o fez para desligar. Segurou e ligou por instinto. Voltado cinco minutos não havia nada além do negro. Então deixou a retornando o filme, e em algum tempo a mancha branca se tornou laranja. Era a cor do cobertor da cama. “Luzes acesas” — pensou.

Pressionou então a tecla para exibição do filme em tempo normal, play, mas não havia na imagem qualquer modificação, mas no ouviu um som abafado, mas bem compreensivo, ouvia ali os últimos dizeres de seu Amor enquanto ainda conversava com Eduardo no quarto.

‘Seria mentira dizer que Alex sentiu algo. Verdade é, que não sentiu nem ódio, nem tristeza. Ele apenas sentiu um vazio incompreensível. Então seguiu a cozinha pegou grande quantidade de torresmo e bacon, colocou em uma grande panela, e agradado pelo cheiro de fritura caminhou tranquilamente pela casa relembrando tudo o que acontecera em toda sua vida.

Nos quartos, permaneceu olhando a cama e as fotos guardadas por Maria. Na cozinha a banha já se transformava em óleo, e com o grande calor se incendiara provocando chamas no forro de madeira, que se espalhava rapidamente por toda a casa.

Do lado de fora, vizinhos e curiosos não acreditavam, que ali houvesse alguém, e mesmo que acreditassem quem ousaria entrar em tal inferno?

A fumaça agradava a Alex. Ele olhava para o corredor, e não podia definir o que estava ali. Então poderia ser Maria a vê-lo, a assisti-la em uma crise de risos, alegre e viva. E Alex a chamou, gritou e gritou...

E quis Deus que Maria não ficasse muito tempo naquela estrada deserta, pois, fora encontrada por bom homem que apressado a levou para Anápolis, e lá ela correu até a casa em chamas, e em grito chamou pelo único homem que já a amou.

E ele surgiu na janela, e sorriu enquanto o fogo o consumia a carne.

Contam, alguns curiosos que lá estavam, viam descer de olho esquerdo do jovem uma única lágrima de alegria.

 Fim

ALEXbotaotexto

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