IV

Alex volta a Anápolis.

Para Alex não havia nenhuma outra alternativa se não contar a Maria toda a verdade. Estava calmo, não havia mais preocupações ou inquietude. Seu ser era transformado, era hoje aquilo que sempre fora, frio, incapaz de dissimular ou mentir.

Era sábado, ligou para Maria e marcou de encontrá-la num parque. Ela aceitou com entusiasmo, preocupou se apenas em cuidar de sua estética nas duas horas antes do compromisso. Com dez minutos de antecedência chegou ao parque. Alex já a esperava, ele estava sentado sobre o apoio das costas de um banco e pisava sobre o assento. Seus olhos eram negros, suas pupilas estavam totalmente dilatadas. Ele segurava uma caneta e quando Maria chegou se levantou rapidamente e a chamou a acompanhá-lo em uma caminhada.

— Desculpe ter marcado aqui nosso encontro, é que tenho algumas coisas a te falar, e acredito que em sua casa não teria a privacidade que temos aqui.

— Que foi meu amor. — disse Maria com grande carinho.

Friamente Alex afastou e pediu em tom seco que lhe desse total atenção. —  Quero falar sem interrupções — uma pausa e continuou — Não só a sua compreensão mais a de quase todos os homens é mesquinha. Vocês são incapazes de entender e assimilar coisas simples que não estejam em sua filosofia medíocre, o que chamam senso comum. São tolos e assustados agem de forma covarde. Um ser diferente e racional seria tratado por vocês de forma monstruosa. Vocês são capazes de se defender alegando que os agredidos são bestas. Iludem-se com a ideia de uma alma que alimenta seus corpos fracos. Apenas mais uma desculpa esfarrapada. Eu ria dos Evangelhos contados na Igreja porque vivo a milhões de anos e digo que vocês demoraram até demais para conseguir escrever algo assim tão idiota. Vocês se apoiam em um ser imortal que os acompanhara do início ao fim dos tempos e eu te digo que o único ser imortal sou eu. Sou aquele que já estava antes do mundo e estarei aqui quando todos vocês estiverem mortos. Esqueça Ele, eu sou o princípio e o fim, a vida e morte, a eternidade e a vida eterna!

Maria armou um sorriso com muita dificuldade. Acreditava sim, que aquilo era uma brincadeira, sabia também que se tratava de uma grande blasfêmia.

— Bem Alex... Quer chegar onde?

— Sempre vivi, e não morrerei até que todos estejam mortos...

— Você leu isto? Ah claro é seu livro!?

— Maria você está se fazendo de idiota.

— Não gosto que me chame de idiota, nem brincando.

— Eu não estou brincando.

Maria afastou se irritada.

— Eu sou. O a e o z, aquele que vivia antes do mundo ser; o viverá depois que o mundo se desfazer.

Maria se preocupava com a convicção do rapaz.

— Está bom Alex, muito bom... Agora deixe de brincadeira. Você está bem? Sei que o Tio era sua família.

— Veja. — disse Alex levantando a camisa e retirando uma caneta metálica do bolso.

Num golpe rápido perfurou o abdômen com a caneta. A dor foi tão intensa que caiu no chão e não conseguiu retirá-la. Maria correu a seu socorro, torceu o tecido da camisa e apertou onde a caneta perfurou. Um guarda não muito longe fez sinal para a garota, que o chamou. Uma ambulância foi solicitada e cerca de trinta minutos depois o jovem já estava na sala de cirurgia.

Era operado, enquanto Maria dava esclarecimentos a uma psicóloga. A morte do único familiar, seu tutor, parecia ter lhe causado grandes transtornos. Terminada a cirurgia o jovem foi para a unidade de tratamento intensivo, permanecendo lá por vinte quatro horas. Maria contou apenas para sua irmã o que aconteceu, pediu segredo. Solicitou licença do trabalho, e durante cinco dias ia da casa para o hospital sem que seus pais soubessem. Esperava ansiosa para falar com Alex.

O rapaz teve a visita de uma psicóloga que após análises, confirmou que este tinha distúrbios mentais. Logo que pode, Maria adentrou o quarto armando um grande sorriso para seu namorado.

— Força um sorriso para esconder sua cara de preocupação? — perguntou Alex.

— Não estou preocupada, sei que não é fácil passar por tudo o que você vem passando. Eu não deveria ter te deixado sozinho. Deveria estar com você e ajudá-lo a enfrentar esta barra.

— Sua bondade me assusta Maria. Sou tão diferente de você.

— Não quero ouvir isto mais nunca! Você é como eu, é quem eu amo. E acabou.

— É sim... — disse Alex antes que pedisse que ela se sentasse.

A visita durou trinta minutos, quando uma enfermeira entrou no quarto para checar o soro; cruzou com Maria que saia. A pequena caminhou três quilômetros até o parque onde acontecera o incidente com o jovem. Ela olhou o lago e em fantasia imaginou Alex chegar. Assim diálogos se transformaram em discussões e lembranças de encontros transformaram-se em tristes histórias, cujo melhor a fazer seria esquecer.

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