III

São Paulo — Na última sexta-feira um jovem de boa aparência foi levado para averiguação no 23º Departamento de Polícia Civil. Conta o delegado Alberto Nunes que o mesmo estava vadiando na madrugada às proximidades de um condomínio de alta classe. O jovem, que não apresentava consigo qualquer documento, alegou não ter nenhuma lembrança ou mesmo saber sua identidade. “Ele diz não saber o nome, a idade ou se tem parentes” — disse o delegado. Após investigações, nesta quarta-feira o jovem foi conduzido a um hospital onde após perícia foi dado diagnostico inicial de deficiência mental. O jovem nesta quinta-feira foi levado ao Instituição Psiquiátrico Doutor Tiburtino.

Nestes anos, Alex vagava sem amigos ou conhecidos. Era um ser sem objetivos ou senso. Não vivia apenas subsistia. Existência egocêntrica, e vazia. Quanto mais se enchia de si mesmo na ilusão de que fosse um ser extraordinário, mais se sentia vazio e desesperançado. O vazio o tomava nestes séculos monstruosamente. Muitas vezes o levando a depressão e a pensamentos catastróficos. 

Nestas noites que vagava distanciando do Norte, foi preso e levado a 23ª DPC de onde foi conduzido posteriormente ao Instituto Psiquiátrico Doutor Tiburtino, onde após atendimento, realizado pelo doutor Tiburtino Filho, foi dado início a sua internação por tempo indeterminado.

“Lembro-me quando lhe vi pela primeira vez. Tinha rosto saudável e alegre. Imaginei imediatamente que você estivesse fingindo. Ah! É só mais um garoto querendo se esconder de alguma encrenca... A cada momento o vendo como você obedecia às ordens, as sugestões. Como me intriguei quando você falou sobre sua imortalidade.”

“Você hipnotizado, disse apenas: — Eu sempre vivi... — Eu lhe questionava, fazia um monte de perguntas e você respondia a todas, nisto eu estava ainda mais confuso.”

“Sei que já me perdoou. És melhor que eu, melhor que todos nós. Sua humanidade é superior à dos humanos. Contudo, para minha paz, insisto em lhe pedir perdão. Não devia ter feito o que fiz.

“Não com você, não com Lisa, não com nenhum deles.”

“Naquele verão, eu os usei como animais, os submeti a minha droga, na ilusão que estivesse fazendo algum bem aos homens, verdade é, que eu era o monstro, eu ofendia toda minha espécie com meus atos...”

O Doutor Tiburtino trabalhava a sete anos na elaboração de um antipsicótico para uso em maníacos compulsivo depressivo. Era uma droga revolucionária que prometia amnésia parcial crônica. Usada juntamente a terapia hipnótica provocaria o esquecimento definitivo que qualquer situação melancólica.

O psiquiatra acreditava que todos os episódios tinham um gatilho, uma lembrança, que devia ser apagada da mente do paciente.

“Lembro-me da pequena Lisa, seu olhar alegre ao pôr-do-sol ocultava neuroses e traumas, que à ciência parecia incurável. Meu pai contava a seus amigos alguns fatos sobre ela, — Ela não tem estrutura psicológica para viver. —  diziam. E como teria... Foi violentada sexualmente pelo pai, tios, abandonada a miséria de um centro urbano, vivera toda a adolescência entregando-se a mendigos por troca de alimento, drogas, calor... — Tomei seus cuidados ainda nova, vinte anos, já tarde...”

Lisa fora acolhida por uma ONG internacional, e com o patrocínio desta foi internada na clínica.

“Eram sete pacientes: Lisa, Marcos, Frederico, Luiz, Antônio, Helen e você. Todos com traumas do passado, atormentados por lembranças. Eu podia ajudá-los, eu pensava poder.”

“Eu tinha tanta certeza que sua sustentação se construía sobre o simples fado que você criava histórias para substituir a verdade.”

“Os mediquei com doses semanais de USO50p. Sempre depois de uma consulta em que os colocava em estado depressivo, remoendo o passado, relembrando os seus medos...”

Sempre na hora do pôr-do-sol Lisa caminhava até o jardim e lá esperava até que fosse noite. Permanecia estática como se visse anjos nas nuvens.

Foi em meio a esta contemplação que Alex a viu pela primeira vez. Ele se aproximou e perguntou:

— Qual é seu nome?

A jovem continuou quieta não pronunciou qualquer palavra, nem se quer retirou os olhos do horizonte. Alex sentou e ficou a observá-la, e isso se repetiu dia após dia.

Diariamente Alex esperava no jardim. A pequena Lisa chegava. Ali ele a contemplava, e novamente perguntava seu nome. Passaram semanas sem que a jovem nem ao menos o fitasse. Até que um dia...

— Lisa, meu nome é Lisa. E o seu?

— Boa pergunta. — respondeu Alex

Tá maluco, você não sabe seu nome! — exclamou Lisa.

— Estou não. Eu sou.

Lisa sorriu Alex continuou:

— Pode me chamar de Francisco, o doutor me chama assim.

— Chico? — perguntou Lisa.

— Chico não! — pensou Alex  — Você pode. Só você.

“No princípio quando vi Marcos conseguindo comer, e Lisa conversando, pensei estar a um passo da cura”

“Você e Lisa não paravam de conversar um minuto, pareciam lou... Deixa para lá. E quando vocês chegaram e disseram que iriam ao teatro. Fiquei em júbilo com aquilo. Minha droga funcionará, nem eu pensava que as coisas seriam assim...”

— Quem pensa que sou? — questionou Lisa a Chico.

— Uma jovem linda, delicada e gentil.

As feições de Lisa se fecharam, ela se entristecia.

— O que foi meu amor? — perguntou Chico.

Era a primeira vez que a tratava com expressões tão carinhosas, e como resultado a jovem se entristecia.

— Eu... — hesitou Lisa — Eu não sou nada daquilo que pensa, eu sou uma prostituta louca.

— Que diz?

— Você está se apaixonando pela pessoa errada.

— Você é linda!

— Seus olhos estão cegos, rapaz! É muito inocente para compreender o que acontece. Eu não sou e nunca serei uma mulher digna para você, e enquanto somos amigos, peço que abandone qualquer coisa que sinta por mim. É fraco e irá sofrer com a verdade.

— Que verdade?

— Sou uma prostituta.

— Hoje?

— Não! Fui, mas mudarei de vida, quero vida nova.

— Parabéns! — disse Alex com sincera alegria.

— Isto me faz bem diferente de você, não pense que namorarei você ou aceitarei que você leve estes seus desejos e sentimentos adiante.

— Você quer ir ao teatro?

— Ir ao teatro? Estamos em um sanatório, você é louco?

“Tamanha era a surpresa que não pude negar. Eu os deixei na porta com os ingressos em mãos e aguardei junto a escolta policial, do outro lado da rua. Se entraram sorrindo saíram maravilhados.”

Todos os dias Alex e Lisa caminhavam pelo jardim. Ninguém diria que aqueles dois jovens tão saudáveis e fortes necessitassem de tratamento psiquiátrico. E esta ideia logo chegou ao conselho da clínica que em reunião questionaram a Tiburtino Filho, o responsável pela internação.

— Para onde irão? — questionou Tiburtino.

A resposta à pergunta eram apenas desculpas, já que não podia perder tão precocemente seus pacientes cobaias. 

— Lembra-me seu pai. — disse o diretor Wadson — Sua bondade e preocupação pelos pacientes muito nos orgulha. Mas são tempos de crise, não podemos estender mais. A assistência social já veio aqui, observaram a melhora dos jovens e já falam em cortar verba caso não seja recebido novos pacientes.

“Dos sete pacientes envolvidos em minhas experiências, seis tinham distúrbios graves de comportamento, colocando em risco a vida de outras pessoas. Francisco era a exceção, o único que não demonstrar agressividade. Por isto pensei em dar alta a ele, para isto decidi submetê-lo a uma seção de regressão.”

— Não me lembro... Sempre vivi, e sempre viverei.

“A insistência do rapaz me incomodava, já a véspera de sua alta ele continuava a insistir ser imortal. Até que na manhã em que eu o entregaria a assistência social ele me chamou a consultório e tampou a respiração. Sou agnóstico demais... passaram três minutos antes que eu o questionasse:”

— Qual é o truque?

“O jovem vendo minha indiferença, foi a janela sovou-a e com um pedaço de vidro cortou o rosto. Ele me cercou evitando que eu saísse da sala. Enxugou o rosto e eu vi sua ferida estancando o sangue rapidamente.”

— Não me machuco...

“Afastei de Francisco, ainda havia o corte, mas enquanto distanciava caminhando para trás, percebia claramente que seu corte sumia. Aproximei com atenção e fitei seu machucado com grande interesse. Enquanto ele relaxava, seu corte ia desaparecendo. Demorou quinze minutos para que o corte se tornasse apenas uma cicatriz.”

“Era inacreditável demais. Neste dia dispensei a assistência social e tomei Francisco aos meus cuidados. Dias de cuidados clínicos e observação para provar que ele tinha todas as características fisiológicas normais e apenas uma característica extraordinária:”

“Chico não podia morrer”

Os dias daquele ano passavam rápido, o desempenho da USO50p impressionava Doutor Tiburtino, que já ouvia queixas de seus sete pacientes, que desejavam sair da clínica.

Os jovens estavam ótimos, Marcos não demonstrava nenhum sinal de sua acrofobia, Helen caminhava solitária sem qualquer receio... A droga funcionava!

A USO50p é uma combinação forte de drogas sintéticas de uso proibido. Os efeitos colaterais iam da produção excessiva de radicais livres, catabolismo muscular e envelhecimento do sistema nervoso. Doutor Tiburtino confiava seu trabalho a juventude de seus pacientes. Já que estes tinham vida e energia em abundância, metabolismo forte e resistiriam aos sintomas adversos.

“Teoricamente a droga tinha ação complexa e sua aplicação deveria ser feita apenas por pessoal altamente competente. Poderiam dizer-me que esta não seja uma droga para os dias atuais...”

“Eu não acreditava em um futuro com mais progresso do que eu descobrira.”

“E digo acreditar nisto por dois motivos: O USO50p a revolução aos traumas. Já imaginava o dia em que o homem magoado pudesse engolir uma de minhas pílulas e simplesmente, esquecer... É brincadeira, claro que via as coisas de modo mais profissional. Eu tinha a chave que todos buscavam. Freud se tornara inútil. Uma droga que apaga as lembranças que causam os traumas, as paranoias os medos. — esta era a frase que repetia a mim mesmo dia após dias”

“A segunda razão era Francisco, analisá-lo ia além da mera compreensão do homem, ia à compreensão do próprio Deus.”

“Todos os pacientes pararam de receber a droga. As lembranças traumáticas já haviam desaparecidos e não havia motivos para continuar.”

* * *

Diário de Tiburtino

20/12 Há uma semana interrompi nos pacientes o uso da USO50p, estranhei hoje no atendimento que realizei a jovem Helen e a Lisa, que ambas têm dificuldade em reconhecer alguns funcionários da clínica, fotos de objetos e paisagens. Helen não reconheceu um cachorro, e Lisa, carros e a figura de uma Igreja. Mas nenhum de meus pacientes demonstrou qualquer comportamento neurótico ou paranoico.

27/12 Fui chamando hoje de madrugada, Marcos gritara toda a noite. Quando cheguei, fui abraçado, ele me disse algumas palavras confusas, entendi claramente apenas o dizer: eu te amo. Ele entrou em um estado de choque. Demonstrou reação a dor. Realizei visitas às onze horas e as quatorze, continua estável; já as dezesseis horas não apresentou resposta a dor. Francisco e Lisa apresentam entre todos o melhor quadro, Frederico, Luiz, Antônio, Helen estão em estado de vigília, inquietos.

29/12 Levei Francisco para minha casa. Ele demonstra um estado clínico bom, o que não poderia diferir sendo o que é... Não quero que ele veja Lisa, seu laço com a garota é forte, e acredito que ele venha a reagir mal se vê-la no estado que se encontra. Todos os seis estão tendo crises violentas. Lisa não para de repetir: “Chico”, e a noite passei próximo ao quarto de Francisco que dorme em minha casa e escutei ele a conversar sozinho. Ele fala com Lisa. Ele insiste em pedir para vê-la.

05/01 Foi iniciada uma investigação nesta manhã para apurar o incidente com os seis jovens internados. Francisco também demonstrava comportamento desequilibrado, tornara depressivo e gritava o nome de Lisa, repetindo sempre que a amava. Acuado pela investigação tomei a iniciativa de levar Francisco para ver sua amiga. A jovem hoje felizmente acordara mais tranquila. Ao anúncio da visita Lisa levantou e aprontou para esperar o amigo.

* * *

Chico e Lisa se abraçaram por quase um minuto.

— Tinha saudade. — disse Chico.

— Quero você... — sussurrou Lisa ao ouvido do amigo.

— Eu te amo!

Os jovens se beijaram.

“Sempre fui frio as demonstrações de amor naquele lugar. Não era de se esperar o contrário, estávamos em um sanatório. Ali, muitos eram os sentimentos e pouca a razão. Contudo, confesso ter-me emocionado com o que vi. Todos os sete jovens de definhavam dia-a-dia, adorando morbidamente algo ou alguém.”

“Helen amava um canto de seu quarto, Frederico o sol, Luiz um pequeno bloco de notas, Antônio seu travesseiro, Marcos a mim... De comum a loucura, pura insanidade, explicada por um só fato... Esqueceram tudo aquilo que não gostavam... E mesmo passado semanas da interrupção do medicamento, os pacientes continuavam a ter todos os efeitos e ainda mais intensos. Apenas Francisco e Lisa pareciam demonstrar alguma consciência no final de janeiro. Ambos chamavam um pelo outro o tempo todo. Eu já temia as consequências de meus atos. Não apenas pela punição que me causaria com certeza a cassação de meu diploma, mas sim pelo estado clínico de meus pacientes.”

“Sou sincero ao dizer que não esperava me envolver emocionalmente com qualquer um deles. Não Francisco para casa por desejar ajudá-lo. Verdade é, que seu’eu não soubesse de suas habilidades extra-humanas, chamais o teria ajudado. Ocorre que naquele verão acabei por me apaixonar por aqueles meninos que renasciam à vida, fortes, verdadeiros vendedores da razão.”

“Se Deus os deu a insanidade eu os dei o alívio. Puderam viver ali, alguns dias daquele verão, a verdadeira consciência. A consciência do homem de todos os dias. Inconsequentes, sem passado, e sem história... Primeiro Helen, segundo Frederico, terceiro Antônio, quarto Luiz. Assim morriam um a um. Eu me preocupava em esconder Francisco e terminar meus relatórios para defesa de algo que não tinha perdão.”

Lisa estava inquieta. Na cama se contorcia enquanto gritava o nome de seu amor. Chico! — num grito que misturava choro e dor. Tiburtino acreditando que poderia dar algum alívio a moça que, diferente de Marcos ainda tinha consciência, levou-a ao jardim onde pudesse ver o pôr-do-sol. Lisa morreu no jardim assistindo a um rubro pôr-do-sol, poucos minutos antes que Marcos viesse a falecer. Doutor Tiburtino recebeu o chamado do conselho médio para se apresentar a sindicância formada com intuito de apurar os incidentes ocorridos.

Francisco retornou a clínica onde permaneceu internado.

“A sindicância era o começo de minha decadência. Com o diploma cassado e sem reputação, me pus a esconder em meu apartamento. Lá fiquei dia-após-dia, preocupando-me com duas coisas. Uma defesa ao processo criminal por homicídio culposo. E trazer Francisco para minha tutela. Algo difícil, mas possível.”

Com a popularização do incidente, muitas famílias foram ao hospital e posteriormente ao Ministério Público. Processos e queixas ao doutor vinham de todos os lados. Os parentes preocupavam com a hipótese do doutor louco. Boatos sobre pacientes curados que eram mantidos presos e outros que pioravam após a internação na clínica espalhavam por todo o Estado de São Paulo.

Passavam os dias, e o doutor que até então se preocupava apenas com seu ego começara a se culpar pelos acontecimentos. Seis mortes, seis jovens, um a um. O peso em sua consciência não o deixava dormir. Ia a todas as audiências criminais e nestas sempre apresentava aparência fria, louca. O processo se concluía, poucos ousavam especular um veredicto favorável ao doutor.

Um dia antes do anúncio do veredicto, o doutor Tiburtino foi ao hospital, não podia trabalhar, mas como sócio majoritário ninguém lhe impediu. Buscou informações sobre Francisco sendo informado por uma enfermeira que este estava muito deprimido e permanecia no quarto todos os dias até o fim da tarde quando ia ao jardim. A enfermeira contou que o rapaz continuava a chorar chamando pela jovem Lisa.

“— Sua saúde está ótima. É certo que o jovem ficará bem, entretanto ele continua chamando por Lisa. Ele chora dia após dia. Ao fim da tarde vem para o jardim e fica a olhar o pôr do sol. Sempre angustiado, e como disse: chora muito, principalmente quando retorna ao quarto. Após ameaçarmos não o deixar ver o pôr do sol ele se cala, mas algumas noites ainda grita. — disse a enfermeira.”

Naquele fim de tarde quando Francisco chegou ao jardim, do doutor o esperava. O jovem suplicava por uma resposta: — Onde está Lisa?

Vou te levar a ela... — sussurrou Tiburtino, tomando-o pelo braço e conduzindo-o ao carro.

O doutor fugiu levando o jovem.

“Meu filho, sei que tens razão para me odiar, muitos foram meus erros. Hoje confesso sem medo e espero que me perdoe... Você tem todas as respostas para suas dúvidas aí dentro de você. As respostas sempre estiveram aí, eu só as ocultei por algum tempo. Respire tranquilamente e deixe que as lembranças surjam na sua mente, sem esforço. Quando se lembrar dos dias que ficou internado, de minha casa, onde ficou naqueles dias, então já terá lembrado de tudo. Espero que possa verdadeiramente me perdoar, e se agora se pergunta o porquê de lhe contar, respondo que agora você pode suportar a verdade, porque é forte, porque ama. És forte por ela.”

“Que Deus lhe abençoe, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos!”

* * *

Segundo o desejo de Tiburtino, Alex deveria se apresentar ao filho deste, para que o mesmo se responsabilizasse pelos cuidados do jovem imortal. Assim o imortal seguiu retilineamente até a casa, adentrou e colocou os olhos sobre Pedro, filho de Tiburtino, que o chamou ao escritório.

Ambos pararam frente a frente em um ambiente escuro, nesta penumbra Pedro fala:

— O que espera?

— O senhor seu pai disse-me que chegada a hora dele, deveria eu falar com você. Não sei exatamente sobre os motivos do isolamento do seu pai, mas como ele, acredito que possa me ajudar.

Pedro suspirou como se tentasse controlar sua ira:

— Você era o garoto de programa de meu pai! É nojento falar disso e eu não vou falar... Você e meu pai aqui neste lugar escondidos do mundo. Tenho vergonha dele, tenho vergonha de tudo. Se você aparecer na minha frente, eu juro pelo meu filho, que te mato, seu animal nojento, desprezível.

O orgulho pessoal fez Francisco calar. Caminhou até junto a porta antes de se pronunciar na defesa de seu amigo.

— Nestes milhares de anos que estou vivo, não vi nada tão asqueroso como você. Aí, defendendo a herança do pai que você viu sendo julgado publicamente. Decerto que ele errou, mas tinha o intuito de realizar o bem. Nada como você, tão desprezível. Gastou dois terços do que ele tinha e esperou que ele morresse para pegar o restante. O que me consola é saber que não terá tempo para gastar. Estará morto antes que um só fio de cabelo caia de minha cabeça sem minha vontade.

Pedro entendeu aquilo como uma ameaça a sua integridade e se afastou em movimento defensivo.

— Não vou machucá-lo. — disse o imortal — Não porque eu vá me sentir bem ou mal, mas tão somente por respeito a seu pai. Você está aí parado e é tão burro que não consegue notar como depois de tantos anos ainda continuo assim... Com meus vinte anos.

— Então você não é Francisco.

— Sou Francisco, José, Alex, Manuel, Mimótio... e tanto outros, e vivo pela alegria de saber que pessoa como você se desfazem como um castelo de areia. Quando te conheci você tinha seus vinte e oito anos, estudava Economia.

— Não sou idiota, cometi um engano, em confundir você com Francisco. Eu não... O idiota do caseiro! Ele que me disse quem você era.

— Eu sou o Francisco, o mesmo que esteve em sua casa. Era verão de cinquenta e nove. Você namorava uma menina de dezessete anos que saia com qualquer homem do prédio que lhe desse presentes. Um dia você ligou para ela enquanto eu estava na sala, e tentou impressioná-la com cotações incorretas, inventando crises econômicas. Era um idiota incapaz de conseguir uma garota decente. E pensava que podia convencer-me de que’eu estava junto a um Don Juan. Quando você acordava seus pais já tinham saído para o trabalho, então você se trancava no quarto e ficava se masturbando e lendo revistas pornográficas. Nas noites quentes eu deixava aberta a porta do quarto em que’eu estava. Eu podia sentir do final do corredor o hálito de cerveja, cigarros, pastilhas de hortelã que tinha. Nunca passou de um bundão, covarde e sem qualquer talento. Um parasita humano. Hoje perdi um grande amigo... Você tem quarenta e cinco? Também não demora morrer, estarei lá. Talvez até te leve flores... Adeus.

Francisco também morrera naquele dia junto a Tiburtino. Vivo agora apenas Alex.

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