PARTE CINCO

ALEXbotaotexto

 Novos acontecimentos levaram-me a dar início a um novo capítulo.

[Leonardo]

Comemorei meus cinquenta e três anos num dia que refletia toda minha vida, era frio e nublado. Augusta me fez companhia até altas horas. Notando minha melancolia, me aconselhou: vá para Anápolis. Ela foi enigmática. Não tive coragem de perguntá-la o porquê.

Acordei no outro dia bem cedo e antes que Augusta chegasse à copa onde tomara café, eu já chegava em Anápolis. Deixe o carro em uma garagem e caminhei toda a tarde, fui a Igreja, a faculdade, ao hospital. Senti um sabor que a muito não sentira. É... era mesmo o sabor da juventude. Que saudades tenho do olhar das garotas mais voluptuosa que me comiam com os olhos, e das mais recatadas que desviavam quando percebi que as notava; das medrosas que seguravam suas bolsas quando nos colocávamos a apreciar sua beleza temendo ser um assalto. 

Cada coisa ali trazia alguma lembrança. Aquele grande prédio nunca o vi, mas lembrava do beijo que dei em Fernanda num banco, da praça que não existe mais. Almocei num Restaurante frequentado por universitários de uma faculdade pública que começou a ser construída no ano de minha formatura. Depois do almoço voltei para o centro e fiquei lá até o fim da tarde. Na praça, no cruzamento da Avenida Brasil com a Goiás. Sentei e observei alguns jovens que continuavam a se encontrar ali. Tudo mudara, mas quando fechei os olhos por alguns segundos senti um ventinho tocar-me o rosto. O ar era o mesmo, não mudou, nem um pouquinho.

Passaram alguns minutos até que senti vontade de espichar as pernas. Levantei e caminhei alguns minutos sem perceber que um rapaz de patins vinha em grande velocidade. Com habilidade o rapaz parou bruscamente. Pena que deixou cair seu lanche. Antes que eu pudesse pedir desculpar, ele foi embora dizendo uma palavra que não considero conveniente escrever.

Afastei do local e já longe, virei para dar uma última olhada na praça. Minhas feições não mais ocultaram uma melancolia que a muito insistia a perturbar-me. Vi um mendigo agachado onde eu estava, ele pegava o sanduíche caído no chão e comia. Digo que não compensa viver tanto e ver algo assim. Quanta miséria tenho, nós temos, por viver tanto, e nunca ter dado um só dia em busca do alívio a uma das tantas misérias humanas.

Estou velho, se tenho pouco mais que cinquenta de vida, digo que tenho noventa de culpa. Se me visse daria bem mais do que meus cinquenta e três anos. 

Foi um esforço voltar para onde aquele velho estava. Curvei e o chamei à atenção. Dei lhe alguns trocados que tinha no bolso. O suficiente para lhe pagar boa refeição por três, quatro dias... talvez mais...

O senhor pegou o dinheiro sem cerimônia e me fitou nos olhos. Ele levantou e encarou-me com os olhos esbugalhados. Tive medo, virei devagar e andei alguns passos tentando não demonstrar o que eu sentia.

— Léo... — disse o mendigo.

Meu corpo estremeceu, a voz não mudara nada. Era a mesma voz jovem de adolescente. Virei rapidamente e pela terceira vez na minha vida senti minhas pernas vacilarem. A primeira quando acreditei ter perdido Alex na piscina, a segunda quando escovando os dentes e percebi estar em uma amnésia por cinco, talvez seis anos. Hoje vendo Alex velho:

— Como?

— Lembrado de mim, seu amigo. — disse-me o velho mantendo se tom cordial e simpático.

— Você não envelhecia. — afirmei ao desespero de ver meu amigo tão velho.

— Lembrou! Então vejo que me estima. É bom saber disto.

— Por que está assim? Podia ter me procurado. Procurado a Maria.

“Pensava eu que a verdade era bem maior que Maria, digo hoje que a verdade é bem maior que eu.”

— Qual é a verdade? — perguntei.

— Verdade! Qual, a sua, a minha, de Maria?

— Minha filha! — exclamei — Tenho que falar com ela.

— Uma filha? — questionou Alex com brilho no olhar — Vá Léo.

Alex não impediria que eu fosse. Contudo, desta vez eu não iria. Chamei ele para o carro e fomos até um hotel.

Coloquei nele uma camisa limpa e um paletó e entramos rápido hotel. Impressionei-me pelo seu comportamento, era sóbrio, mostrava inteligência e calma. Como sempre preocupei primeiramente com meu alívio, contei-lhe tudo o que fiz. Confessei meus erros e ele sorriu e disse apenas. “É a vida”. Contei sobre seus textos encontrados cinco anos depois, e como me arrisquei a escrever algumas linhas.

Enquanto eu falava ele caminhou até a janela, e olhou a rua. A noite começava. Então pediu-me que o ajudasse alcançar apenas um de seus objetivos.

— Ainda quero escrever O Livro.

Chamei o gerente do hotel pedi que me conseguisse um notebook. Ele disse que não era um serviço do hotel, mas que eu falasse com seu filho. Um menino de dezesseis anos com cabelos rebeldes. Que entrou no quarto carregando uma bolsa:

— É bom que você golpe, e nenhum tipo de crime — disse o rapaz deixando o notebook sobre a mesa.

Liguei para Augusta e contei o que aconteceu, e acredite, ela serenamente me disse:

— Eu não tinha dúvidas que você o encontraria.

Pedi-lhe que enviasse os textos para meu e-mail e ela o fez. Baixe todos os textos para o notebook e depois os entreguei a Alex. Ele começou a escrever rapidamente, sabia o que escrever há muito esperava aquela oportunidade. 

Pedi pizza refrigerante, e um filme que coloquei baixinho. Alex nem prestou atenção, e teve o atrevimento de dizer ser ruim. Eu adorei.

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