III
No jardim próximo ao palco Léo, Alex e os casais falavam sobre a noite.
— Foi uma injustiça! — exclamava Sílvio.
— Como sabe que foi injustiça, você nem leu os livros deles. — questionou Eric.
— Você viu os títulos... O amor é imortal. Vê se isto é título de um livro que preste?
Caroline caminhou até o amigo buscando o consolar. Ele se afastou irresignado.
— A noite acabou, é melhor que eu vá embora. — disse Sílvio ensaiando um flerte a Caroline.
— Está cedo, mas tudo bem, vamos... — disse Caroline.
— Você vai embora? Por quê? — ironizou Sílvio.
— Por que está assim comigo? O que eu fiz? — perguntou Caroline.
Todos que lá estavam disfarçaram, buscaram algo para mirar os olhos.
Sílvio pressionou a mão direita sobre o peito, segurou alguns segundos, mas falou:
— Lembra no domingo que marcou comigo de irmos ao cinema. Eu fui eu vi vocês, então desculpe por agir assim. Contudo, eu estava apaixonado... Como você quer que eu reaja?
— Não aconteceu nada... — disse Caroline com firmeza, então pensou alguns segundos e corrigiu — Eu não queria...
Alex a interrompeu:
— A culpa foi minha, eu ... Eu a beijei, a força! Se tivesse permanecido lá ia ver que ela se afastou.
— Alex! — exclamou Leonardo e Maria simultaneamente.
— Tímido, em? — ironizou o médico — conheço bem a laia.
— Peço desculpas Sílvio, foi uma violência de minha parte. Estava vivendo um momento difícil... foi carência. — explicou Alex.
— Carência. — resmungou Sílvio.
— Todos estamos muito carentes estes dias, são muitos problemas, muita insegurança. Compreendo Alex — disse Caroline.
— Você e esta mania de compreender tudo! — acusa Sílvio.
— Alex estava com problemas, ele não fez nada de mau, não me ofendeu. Tudo foi assim tão inesperado que não o culpei.
— Se você não o culpa, não será eu a fazê-lo. Agora pare com esta conversa de carente — replicou Sílvio.
— Não sei por quê? O que você pensa? Você também é muito carente — Caroline deu a tréplica.
— Carente é a vó! — concluiu Sílvio.
* * *
Lá estavam Sílvio e Alex caminhando pela avenida 85 seguindo ao Centro.
— Você foi muito cavalheiro pedindo para Eric levar Carol em casa. — disse Alex.
— Você está me seguindo? — perguntou Sílvio ignorando as palavras ouvidas.
— Naturalmente que não.
— Naturalmente que não! Naturalmente que não! Então tome um ônibus que estou indo a pé. — disse Sílvio irritado.
— Posso lhe emprestar o dinheiro para o ônibus.
— Eu tenho dinheiro para o ônibus, não se preocupe.
Alex olhou em volta os olhares de algumas pessoas em um bar próximo. Provavelmente atentos ao tom alto que Sílvio falava.
— Você poderia ter ido com Eric, contudo não foi para não ficar próximo a Carol — disse Alex.
— O que você sabe sobre mim e a Anna? Nada!
— Sei sim... Sei que vocês se gostam muito.
— Ah bom, é ótimo saber que você tem este conhecimento todo... — ironizou Sílvio.
— Cara é difícil de você entender que foi uma situação não premeditada. Se você tivesse esperado cinco segundos, não falo seis ou sete, falo cinco segundos, e você teria visto como eu e a Caroline nos assustamos com aquela situação...
Sílvio espantado parou subitamente:
— Vamos deixar a Anna e eu para outro momento. Agora eu lhe pergunto: Se você tivesse outra chance de resolver tudo com a Maria, o que você faria?
— Sei lá, como?
— Eu cuido do doutor, você da garota.
— Quê?
* * *
No carro a meio caminho do Centro, Maria ouvia as insinuações do médico.
— Noite maravilhosa. Acho que aquele jovem mal-humorado, como é mesmo o nome dele? — perguntou o médico à Maria.
— Sílvio.
— Então, acho que o Sílvio achava esta noite tão monótona porque se prendeu muito naquilo lá. Há muitas coisas legais para se fazer em uma noite como esta.
— Como o quê? — perguntou Maria.
— Ótimo que esteja perguntado. Pego o próximo retorno. Você tem que ligar pro seus pais?
— Ligar para quê?
— É assim que si fala!
— O que você está falando?
— Será a melhor noite de sua vida, sei que você pode ter algum receio, mas sou médico e sei exatamente com agir. Você esperava que tivesse um profissional quando chegasse o dia.
— Você não pode estar falando sobre...
Interrompeu o médico:
— É exatamente, segure-se! — disse o médico enquanto tomava o retorno em grande velocidade.
— Vamos para casa. Agora!
— Não se preocupe, Maria. Vamos para o melhor quarto da cidade, ficamos à-vontade, e você não fará nada que não queira.
— Quero voltar agora!
— Você não vai se arrepender! A primeira vez sempre assusta um pouco, mas logo você acostuma e verá como é bom.
— Pare esta merda de carro agora! — exclamou Maria enquanto força a parada do carro colocando as mãos no volante.
Tão logo o carro parou, ela desceu e seguiu a calçada junto ao muro de um edifício.
— O que você quer? — questionou o médico.
— De você nada, eu vou para casa.
— Você acha o quê? Que tenho tempo a perder. Você quer que eu me case com você? Depois descobrir como você é frígida. Quero saber como você é agora. Hoje! — exclamou o médico enquanto a segurava.
Ambos se movimentavam inquietamente, e agressiva entre injúrias e desculpas, até que o médico ousou reter a Maria com grande violência contra a parede.
— Você quer! Você quer! — insistia o médico, segundos antes de cair a nocaute.
— Aí minha mão! — gritou Sílvio.
— Quer que chame ajuda? — perguntou Alex à Maria.
— Não quero ir para casa.
— Vou acompanhá-la vamos.
Os rapazes conduziram a guarda, e o médico não ousou perturbá-los. Todos seguiram a uma parada de ônibus próxima, e Alex decidido a acompanhar Maria até sua casa, chamou Sílvio a alguns metros para trocar algumas palavras a sós.
— Você é irreal. — disse Alex.
— Menos, eu odeio quando me dizem isto.
— É verdade, você sabe de minha história, de tanta coisa, e age como se tudo fosse normal.
— Que nada é só por fora. Aqui dentro estou me remoendo. — ironizou.
— Vou levá-la em casa. Depois volto para Anápolis, irei te ligar para conversarmos. Peguei seu telefone com a Caroline já há algum tempo, mas estava sem jeito de ligar.
— Não!
— Não?! Por quê?
— Anna e eu já não temos mais papel nesta história. Agora é você e Maria. Não perca esta chance. Amanhã vou me achar um idiota por estar lhe dizendo isto, mas vai lá, lute, lute mesmo. Que se dane, sua imortalidade! Se você não lutar pelo que acredita, então já está morto. Boa noite, e adeus.
Os rapazes se abraçaram com força. Sílvio se despediu de Maria lhe dando um beijo na mão direita, em seguida tomou seu caminho com a tranquilidade de quem cumprira seu trabalho.
Alex acompanhou Maria fazendo uma série de perguntas de modo a lhe tirar um pouco do susto que teve. Mesmo que algumas vezes o comportamento de Alex fosse bastante estúpido, noutras conseguia a atenção da dela, que também buscava agradá-lo com sorrisos.
Já na praça onde ocorrera o incidente do assalto, o casal estendia por mais alguns minutos a conversa:
— Sou apaixonado por você. — disse Alex.
— Não nos vejo como nada além de amigos.
— Eu te irritei, não foi?
— Não, você foi você.
— Então, por quê?
— Não existem porquês, quando não bate, não bate...
— Eu me culpo pelo que fiz, pela forma que levei as coisas.
— Não vejo por que se culpar.
— Você não pensa que...
— Não, Alex. Seremos amigos se quiser, mas só amigos.













