XIV

Como o amor é inabalável à lógica. Alex traçava novos planos...

"Ligar para ela? Não, melhor não. Ir aonde ela estiver, talvez até fazer um plantão na porta na rua que ela mora, e quando ela voltar do trabalho, poder confessar todo seu amor. E beijá-la. Depois se acostumar à rotina de visitá-la todas as semanas. A saírem juntos conhecer seus parentes, amigos, coisa e tal"...

Levado pelos pensamentos Alex tomou um banho demorado e foi para o ponto de ônibus. O mesmo que Maria embarcaria. Então seguiriam juntos para Goiânia, quem sabe já ser apresentado lá como o namorado.

Passavam o tempo e Maria não chegava. Indagou-se o porquê. Esperou ali, como da primeira vez. A noite passava, por alguns minutos pensou estar louco por ficar ali esperando. Mas sentiu vontade de esperar mais, e esperou. As vinte e três horas Maria chegou. Ele sorriu e ela retribuiu.

— Já não nos falamos há algum tempo, não é? — disse Alex já abatido.

— É verdade, mas sempre acabamos por nos encontrar.

— É, às vezes eu até penso se há algo.

— Algo como?

Alex inclinou o rosto levemente suas mãos suavam, estava tremulo, nervoso, sua saliva secava. Quanto tinha a dizer! Seu amor crescia a cada dia. Ele abriu levemente a boca, sem força suficiente para que alguma palavra fosse dita ele apenas ofereceu-lhe a mão para que apertasse.

Seguiram para Goiânia, Alex disse que ficaria na casa dos pais de Léo e que muito havia a ser feito em Goiânia na manhã do dia seguinte. Era mentira... E mentiras se criavam para poder se manter próximo a sua amada, e ali no terminal rodoviário, novamente lhe ofereceu as mãos, nervoso e tremulo, abriu a boca levemente, e sem forças pronunciou poucas palavras, que soou como uma insegura pergunta: “Você sabe que’eu gosto muito de você.” ... Após a despedida, Alex voltou naquela mesma noite, e nunca se sentiu pior na vida que lembrava. Trancara-se em casa, não atendia nem ao menos as ligações que Léo o fazia do trabalho. Ligava o som alto, e ficava a caminhar pela casa, dormia quando os primeiros raios de sol entravam pela janela do quarto, e levantava quando sentia ojeriza da cama. Não demorou que Léo percebesse este comportamento, e logo tomasse providências para animá-lo.

— Uma festinha, a Sandrinha, a Maria o Eduardo e a namorada dele, que não me lembro o nome agora. Isto vai criar um clima legal. Você verá como as coisas irão acontecendo, e quando você ver estará os dois juntos. — disse Léo.

Alex levantou-se enquanto Léo descrevia a festa e saiu. Léo não desistiu. Sábado os três casais jantariam lá. Se o romantismo de Alex não era o suficiente, o de Léo era extremo. Tudo foi feito com total atenção. Vinho, comidas afrodisíacas. Léo se pegou rindo ao fazer aquilo.

“É palhaçada demais!” — exclamava sozinho

O intuito de Léo não era através daquilo unir, Maria e Alex, mas sim realçar as diferenças entre ambos. Numa tentativa de demonstrar o quanto seria difícil o relacionamento.

Sábado dezessete horas Léo servia os três convidados. Alex continuava no escritório. Aplicando-se a escrever estranhas narrativas, em que exaltava um amor idealizado e irreal.

— Alex! Acorde.

O rapaz permanecia como se dormindo profundamente.

Bastaram mais alguns tapas, e Alex levantou como se revigorado. E assim pediu desculpas e disse que tomaria um banho rápido e que dissesse a Maria que ele estava ansioso para vê-la.

No banheiro ele pegou uma pequena lâmina e feriu o dedo indicador. O ferimento sangrou por alguns segundos, então ele segurou a respiração fechou os olhos levemente e quando os abriu viu apenas o sangue sobre a pele.

— Então somos os solteiros da festa?

— Julgo que sim. — respondeu Maria.

— Sarcasmo?

— Um pouquinho só.

— Desejo tomar um pouquinho de vinho, nunca bebo, mas confesso que sinto vontades agora que lhe vejo segurando esta taça.

Alex afastou por pouquíssimo tempo. Pegou uma taça e retornou.

— E o livro? — perguntou Maria.

— É mais difícil do que esperava. Principalmente para terminar.

— Como é a história, será sobre você...

— Infelizmente penso que acabaria por entediar o leitor com estes fatos. Queria eu que coisas emocionantes tivessem acontecido. Mas não foi...

— Não se culpe por isto. — disse Maria enquanto se curvava para dar-lhe mais atenção.

— Como posso não me culpar. Fiz tudo de errado...

— Tudo de errado o quê?

— Maria estou apaixonado por você!

A garota fitou, queria dizer: “Nota-se”, mas não pode, estava nervosa. Ele a segurou pela cintura, inclinou o rosto lentamente e a beijou.

Léo sorria enquanto observava o casal tocando os lábios timidamente. Leonardo não ria por achar engraçado, e sim por estar feliz.

— Alex! Acorde.

Três tapas rápidos no ombro direito, e Alex recuperou a consciência. A realidade o causou melancolia. Estava suado, sujo, fraco. Um vazio lhe preenchia a mente, algo pequeno, pesada e invisível em sua testa o incomodava. Tinha mau-humor, não se preocupou com o que sentia. Depois de um banho demorado, desceu. Maria o recepcionou sorrindo. Ele não negou seu sorriso, mas não foi além de um aperto de mãos. Durante toda a noite Alex manteve a distância determinada pelas feições de Maria, ao contentamento se aproximava e ao descontentamento afastava, não conversou nem iniciou um diálogo, restringia somente a fazer rápidos comentários sobre algum assunto exposto.

O assunto como se escolhido era os benefícios da mocidade, das festas, da dança, do namoro. A figura de Maria se moldava a tudo, a garota alegre que gosta de se agitar nas festas, no forro animado, da companhia da noite. Enquanto Alex se via tão alheio, frio, sozinho.

“Veja como ela é viva! Eu não a faria feliz” — torturava-se Alex

Algumas vezes Maria segurou a mão de Alex, fazendo com que ele se sentisse melhor. Não iam além disto. Assim a noite ia passando.  Mesmo com o entusiasmo de Léo, e o conforto que Eduardo e Marlene estavam, a comemoração não passou dos primeiros minutos da meia-noite.

Léo sabia que Alex a amava e estranhava a atitude. De todo modo, conteve-se e não fez comentários. Uma hora depois que a festa terminou, as luzes foram apagadas e não se ouviu qualquer barulho até a manhã do dia seguinte.

Na manhã Alex telefonou para Caroline. O diálogo foi rápido marcaram um encontro na Universidade Cosmos, depois da aula.

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