XII

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Em trinta dias completaria um ano da chegada de Alex em Anápolis. Muito havia acontecido, e não se lembrava de um ano com tantos acontecimentos.

Alex já dominava o computador, fizera amigos e seu livro, O Livro, estava sendo escrito.

Sendo realista, existia sim um monte de textos, realidade e ficção que se confundiam nas mesmas páginas. Às vezes confuso demais até para o próprio autor.

Léo, o conselheiro, não conseguia dominar Sandrinha que se metia em libertinagens e acabava por colocá-los em más línguas. Maria conservava sua costumeira cordialidade. Contudo, já tomava uma ou outra ação de modo a diminuir o contato com seu admirador. Não que ela não gostasse dele. Gostava. Apenas não poderia admitir que fosse daquela forma... Eram gastos de dinheiro, tempo e cuidados, pra quê? — perguntava-se. Momentos não faltaram pra que ele se declarasse...

Alex interrompia um livro quando já estava próximo a um desfecho da trama e iniciava outro. Tudo que acontecia era anotado: sua admiração por Maria se tornara tão natural que descrevia aquilo em pautas com a tranquilidade de quem assinava o nome. Compreender porque ele não tomava ações mais francas para alcançar o que deseja era um tanto preocupante. Não que faltasse sinceridade, isto não!

Era tudo evidente, até demais.

Chegou os dias em que já não tinha mais sossego. A ânsia o dominava, não dormia, não escrevia, e por horas e horas esquecia das necessidades básicas de sobrevivência como beber água e alimentar. Tudo era melancólico e triste em demasia. Livrar-se da paixão que tinha era impossível, mesmo diante de novas experiências e situações. O misto de alegria e tristeza que emanava da imagem da pequena Maria, lhe maltratava segundo a segundo, e mesmo com todo a lógica do mundo, algo é claro: ele a amava como ninguém.

Por que não mais uma oportunidade? Um domingo, Alex, Leonardo e Maria relembrando o que aconteceu, os momentos engraçados e os fatos que envolveram todos.

Alex entusiasmado com a ideia telefonou para Maria convidando-a. Ela secamente o comunicou que nos próximos dois ou três finais de semana estaria muito ocupada. A formatura se aproximava havia trabalhos, teses, e muitos estudos. Ela afirmou com segurança, que mesmo otimista não acreditava ter tempo livre nas próximas semanas. Deixou, porém, claro que sobrariam um ou outro final de noites, e que uma conversa ao telefone seria mais apropriada.

— Claro, não vamos sumir um do outro. Um esforço e nós conseguimos tempo entre as coisas sérias. O que eu não posso é perder tempo, — disse Maria antes de pedir desculpas e dizer precisar desligar. — te ligo depois — completou.

As semanas passaram e o dia que tanto queria comemorar passou sem qualquer acontecimento que nos valha aprofundar. Léo disse ter sido muito importante tudo o que aconteceu. Maria nem se quer ligou. Alex aguardou, só aguardava. Num fim de noite o telefone tocou já tarde, Alex saiu rapidamente da piscina e correu para atendê-lo, era tarde, a hora que costumava conversar com Maria. Era engano. Viu-se possuído por tudo aquilo. Queria levantar, ir agora lá, abraçá-la e beijá-la. Como queria, contudo, sua mente enchia de argumentos negativos.

Como poderia alguém se apaixonar por um ser tão vazio? — perguntava.

Nesta noite Alex ligou para o Tio, conversou em tom emocionado por duas horas. Depois, perturbado caminhou inquieto pelo quintal, circulou a piscina dezenas de vezes. Tinha medo de que algo o dominasse e perdesse o controle de seus atos. O que lhe causaria isso? A resposta era fácil: “A mesma coisa que lhe causara aquele abismo de perguntas.”

Com a dúvida humana de que a falta de domínio por si o deixaria louco, sucumbiu a insônia. Rolou na cama até os primeiros raios do amanhecer, quando adormeceu ouvindo o barulho de carros que passavam na porta.

Às catorze horas o telefone tocou, era Caroline.

— Você não liga mesmo? — questionou Caroline.

— Carol! É tão bom que tenha ligado.

— Se fosse tão bom assim falar comigo, você teria ligado.

— Que isto, Carol? É maravilhoso falar com você, eu queria poder te ligar e dizer algo legal, mas está tudo tão monótono, melancólico. Verdade é, que’eu não queria te chatear com estas coisas.

Me agrada poder lhe ouvir. Você é uma pessoa fantástica, nunca se esqueça disto. Fale o que lhe preocupa.

— Melhor não.

— Posso tentar adivinhar?

— Pode... Até por que’eu tenho a impressão que você acertará.

— Tentarei. Acredito que seja algo em seu passado, algo que te perturba.

— É acertou. Como você pode saber destas coisas?

— Experiências, experiências. Seja franco. O que há em seu passado que o perturba?

— Não sei?

— Como não sabe, fale, conte.

— Não me lembro, é isto. Pareço que tenho amnésia.

— Amnésia mesmo? Você lembra de algo?

— Lembro de muitas coisas, só sinto como se estivesse esquecido as mais importantes.

— Já procurou um médico?

— O Tio, é um psiquiatra bastante qualificado, entretanto, por algum motivo se recusa a me ajudar nisto. Tem algo que’eu não consigo me lembrar. Se alguém pudesse me ajudar, seria tão importante para mim.

Após uma pausa de oito segundos Caroline falou:

— Amanhã falo com o Sílvio na Faculdade, se me permitir falarei sobre isso com ele. Sei que ele conhece bons psicólogos que vão resolver este problema seu.

— Será que existe uma forma de resolver?

— Nem ouse ser pessimista pro meu lado. Por hora deixaremos o passado que este já foi esquecido e nos preocupemos com o presente. Como vão os amores?

A resposta iniciou com um muxoxo — tão sombrio quanto o passado.

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