12.06.2005
Era uma quinta-feira quando o jovem Almeida chamou seu pai à mesa para contar lhe da decisão que tomara. Almeida decidira mudar-se para casa de um tio em outro estado. Ninguém poderia compreender o porquê daquilo. O convite que fora feito por seu tio já há alguns meses, não poderia ser menos tentador. Trágica mudança, em momento tão importante, a custo de nada. O pai do jovem escutou todos os argumentos de seu filho sem que qualquer um o justificasse; ficou quieto por quarenta segundos, depois fitou o rapaz e com um leve sorriso, balançou o pescoço positivamente.
Almeida tinha uma grande quantidade de amigos, os quais fazia questão de avisar, um a um. O primeiro, naturalmente, foi Antônio, seu grande amigo. Na sexta-feira ambos caminharam sem destino pela cidade, Almeida se concentrou em formular os mais convincentes argumentos. Nada convincente, porém Antônio que conhecia o amigo como ninguém, decidira esperar. Sentia incerteza, e acreditava que seria apenas mais uma de suas invenções.
— E a Maria... — Sussurrou Antônio.
— Vou conversar com ela amanhã...
Depois disto eles não tocaram no que se dizia respeito à partida do rapaz. Antônio se encantara com bela moça da faculdade, e isto renderia um bom papo até o final da noite. Quando já se despediam, Almeida reafirmou sua decisão, com tamanha certeza que quase se enganou. Nada serio, ainda não tinha ligado para seu tio, muito ainda poderia acontecer.
Eram quinze horas quando o jovem rapaz completou a terceira volta no quarteirão em que a garota morava. A janela aberta foi a pista que demonstrava a chegada do trabalho. Almeida não hesitou, bateu palmas e aguardou a chegada com uma dúvida no rosto, quase um sorriso.
Os planos de partida foram ditos enquanto caminhavam para sala. Maria foi à cozinha e voltou com um copo de água. Ela percebera como o jovem aparentava em calorado. Já sentados, Almeida contou tudo o que faria. Falou inevitável impossibilidade do contato conseqüência do distanciamento. Maria desejou ao amigo os mais felizes votos. Apenas Almeida não sentiu o frio. Naquela tarde não tinha mais dúvidas, sairia na quarta-feira.
Antônio permaneceu junto ao amigo, todo o domingo e segunda, na terça ligou dizendo ter que pernoitar na casa de um parente. Talvez não conseguisse chegar até a partida. Era apenas desculpa, ele não queria ver o amigo partir. Durante este último contato, Antônio hesitou alguns segundos, depois então perguntou se aquilo era mesmo necessário. Almeida se restringia em dizer que seria o melhor.
A terça foi no telefone. Almeida ligou pra todos amigos que pode. Todos lhe desejaram sorte, os melhores votos. Almeida dava ênfase ao dia e hora. “Cedo, sei... É que decidi fazer isto... Sabe? É melhor.”, era o que dizia sempre que estava nervoso.
A quarta-feira foi movimentada em sua casa, todos os parentes se reunião bem cedo para despedirem. Almeida se manteve sereno, conversava com todos, os abraçavam fortemente. As quatorze horas comunicou a todos que seguiria para rodoviária. “Vou sozinho, nada de despedidas”, dizia o garoto.
Sozinho na rodoviária o jovem garoto sentiu-se mal. Ficou inquieto ao observar o horizonte, a expectativa de alguém que não vinha. Todas as malas já estavam guardadas, o último passageiro entrou, faltava Almeida, que permanecia atento ao horizonte. Ninguém. Caminhando lentamente para o ônibus, relembrou todos seus amigos. Eles o amavam, eles o desejavam felicidade e sorte. Forte foi a melancolia que Almeida sentiu quando o ônibus iniciou se percurso. Todos o amava; Almeida era feliz por isto, mas ele sofria, sofria muito por ninguém ter lhe impedido.
Em um dia escuro e chuvoso Almeida partiu.
Silvio de Souza Lôbo Júnior (2005)
####### Acima, o texto original; abaixo, a versão corrigida em 2025. #######
Era uma quinta-feira quando o jovem Almeida chamou seu pai à mesa para contar-lhe da decisão que tomara. Almeida decidira mudar-se para a casa de um tio em outro estado. Ninguém conseguia compreender o porquê daquilo. O convite, que fora feito por seu tio há alguns meses, não poderia ser menos tentador. Trágica mudança, em um momento tão importante, a custo de nada. O pai do jovem escutou todos os argumentos de seu filho sem que nenhum deles o justificasse; ficou quieto por quarenta segundos, depois fitou o rapaz e, com um leve sorriso, acenou positivamente com a cabeça.
Almeida tinha uma grande quantidade de amigos, os quais fazia questão de avisar, um a um. O primeiro, naturalmente, foi Antônio, seu grande amigo. Na sexta-feira, ambos caminharam sem destino pela cidade, enquanto Almeida se concentrava em formular os argumentos mais convincentes. Não obteve sucesso. Antônio, que conhecia o amigo como ninguém, decidira esperar. Sentia incerteza e acreditava que seria apenas mais uma de suas invenções.
— E a Maria? — sussurrou Antônio.
— Vou conversar com ela amanhã...
Depois disso, eles não tocaram mais no que dizia respeito à partida do rapaz. Antônio se encantara com uma bela moça da faculdade, e isto rendeu um bom papo até o final da noite. Quando já se despediam, Almeida reafirmou sua decisão, com tamanha certeza que quase se enganou. Nada sério, ainda não tinha ligado para seu tio, muita coisa ainda poderia acontecer.
Eram quinze horas quando o jovem rapaz completou a terceira volta no quarteirão em que a garota morava. A janela aberta foi a pista de que ela havia chegado do trabalho. Almeida não hesitou, bateu palmas e aguardou que ela aparecesse, com uma dúvida no rosto, quase um sorriso.
Os planos de partida foram ditos enquanto caminhavam para a sala. Maria foi à cozinha e voltou com um copo de água. Ela percebera como o jovem aparentava acalorado. Já sentados, Almeida contou tudo o que faria. Falou sobre a inevitável impossibilidade de contato como consequência do distanciamento. Maria desejou ao amigo os mais felizes votos. Apenas Almeida não parecia sentir o frio da situação. Naquela tarde não tinha mais dúvidas: sairia na quarta-feira.
Antônio permaneceu junto ao amigo durante todo o domingo e a segunda-feira. Na terça, ligou, dizendo ter que pernoitar na casa de um parente. Talvez não conseguisse chegar a tempo para a partida. Era apenas uma desculpa; ele não queria ver o amigo partir. Durante esse último contato, Antônio hesitou alguns segundos, e então perguntou se aquilo era mesmo necessário. Almeida se restringia a dizer que seria o melhor.
A terça-feira foi gasta ao telefone. Almeida ligou para todos os amigos que pôde. Todos lhe desejaram sorte, os melhores votos. Almeida dava ênfase ao dia e à hora. “Cedo, sei... É que decidi fazer isto... Sabe? É melhor” — era o que dizia sempre que estava nervoso.
A quarta-feira foi movimentada em sua casa; todos os parentes se reuniram bem cedo para se despedirem. Almeida se manteve sereno, conversava com todos e os abraçava fortemente. Às quatorze horas, comunicou a todos que seguiria para a rodoviária. “Vou sozinho, nada de despedidas”, dizia o garoto.
Sozinho na rodoviária, o jovem garoto sentiu-se mal. Ficou inquieto ao observar o horizonte, na expectativa de alguém que não vinha. Todas as malas já estavam guardadas, o último passageiro entrou. Faltava Almeida, que permanecia atento ao horizonte. Ninguém. Caminhando lentamente para o ônibus, relembrou todos os seus amigos. Eles o amavam, desejavam-lhe felicidade e sorte. Forte foi a melancolia que Almeida sentiu quando o ônibus iniciou seu percurso. Todos o amavam; Almeida era feliz por isso, mas ele sofria, sofria muito por ninguém tê-lo impedido.
Em um dia escuro e chuvoso, Almeida partiu.