Sina
Era noite, a chuva terminara há poucos minutos, o
clima era frio, mas todos ainda conservavam a sensação calórica daquele dia
quente. Neste momento quatro amigos seguiam para uma boate na zona norte. Kelly
mantinha se muito descontraída ao lado de Carla, que dirigia, Lucio e Kênia
estavam banco de trás. Já na zona norte quando atravessavam sobre ponte um
volumoso rio, Kelly se assusta ao ver um amigo sentado sobre a barra de
proteção.
— Pare, disse Kelly assustada, é o Dal
Dal apelido dado pela contração de seu sobrenome de
Valmiro Vidal, era a forma carinhosa que Kelly chamava o amigo o qual
afinidades não faltavam.
Carla parou bruscamente, Kelly foi a primeira a
descer, logo grita pelo amigo, que a fita com olhar muito alegre.
— Oi, Kelly.
— Oi, o que esta fazendo? Pergunta Kelly com claro
tom de medo em sua voz.
Dal vira-se para água que corre sob a ponte, sorri:
— Acho legal, disse.
As águas corriam furiosas, efeito das águas
acumuladas de muitas chuvas distantes.
— Legal Dal... Desça daí, agora vamos, disse Kelly
enquanto o puxava.
— Não vou me jogar, se é isto que vocês estão
pensando, disse Valmiro assim que viu a chegada de todos com suas expressões
atemorizadas.
— Sei que você não vai se jogar, mas o que me
preocupa é que caia.
— Eu não vou... Valmiro é interrompido.
— Sei, sei, sei... Só não suba... Mas afinal o que
esta fazendo ai?
— Observando.
— Só observando, pergunta Kelly.
— É, claro que eu tenho meus motivos, só que não
acredito que queriam saber.
Lucio se aproxima, olha curioso para o rio, nada o
atraia:
— O que é? Agora fale. Estou curioso.
Valmiro parecia hesitar, respira profundamente, mas
conta:
— Há algum tempo, seis anos. Estou com vinte e dois
agora. Eu caminhava com um amigo pela noite quando passando por uma ponte ele
parou e observou as águas como se hipnotizado. Eu o perguntei o porquê, mas ele
não respondeu, começou a falar sobre outras coisas, sobre o futuro, o que
queria fazer. Eu pensei que ele queria desabafar, mas nada que ele falava tinha
qualquer significado, não pra mim aos meus dezesseis anos. Só que ele olhava
tão atento às águas que eu não demorei a imitá-lo. Logo estávamos lá parados,
logo me calei e fiquei a olhar...
Valmiro se cala e fica quieto a olhar as águas,
ninguém se preocupava com as águas, o que fez com que a narrativa continuasse,
levanto Lucio a retornar sua observação.
— Depois de algum tempo meu amigo, virou se, e
continuou seu caminho. Eu demorei alguns segundos pra perceber que ele havia se
afastado, ainda pude alcançá-lo. Lembro me que ele disse que gostava de olhar
as águas. Não dei muita importância sobre aquilo. Mas no ano seguinte ele se
mudou. Eu meio por instinto comecei a vir até aqui, e olhar as águas, não passava
uma semana sem que eu viesse. Anos se passaram, e eu continuo vindo, como hoje.
Há alguns meses o encontrei, eu não agüentei, logo que o vi perguntei se ele
continuava indo a algum rio olhar as águas. Ele me disse que encontrara um
amor, e que se casaria, disse que ela estava grávida, que conseguira um
emprego, e que era feliz. E disse que depois disto nunca mais voltara a ir a
ponte, lago ou qualquer outro lugar para olhar as águas.
Lucio continuava a procurar algo que o satisfizesse.
Kelly ouvira atenta a tudo. Nada lhe fazia sentidos.
— Por que continua olhando as águas? Insiste Kelly.
— Porque é bonito, é fantástico... Mas um dia estarei
pronto, irei viver, terei minha casa, uma esposa e meus filhos, trabalharei
muito e poderei comprar as coisas que desejo.
Kelly sorri.
— E continuará a vir aqui e olhar as águas? Pergunta
Kelly.
— Não mais, quando isto acontecer já estarei livre,
sussurrou Valmiro para que só Kelly pudesse ouvi-lo.
Todos se calam, Carla seguiu ao carro e fez sinal
para os amigos. Kênia que não se importara com nada daquilo, foi a primeira a
entrar no carro. Valmiro que observou cada um nos olhos com maravilhosa alegria
afastou se lentamente e desapareceu ao entrar pela alameda que seguia o rio.
Kelly que não compreendia o que acontecia entrou no carro, e se despediu de
Lucio que ficou.
Silvio Lôbo Júnior