Qui, 09 de Setembro de 2010

Amor

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(Antiga coleção Paranóias)

 

Preste atenção, pois a história que tenho pra contar é verídica, aconteceu com a amiga da empregada da vizinha de Teresinha uma gracinha de dezenove anos que conheci em uma festa em Goiânia, a qual infelizmente nunca mais vi.

Ela me contou este fato que aconteceu aqui no ano passado. Os acontecimentos que envolvem os instantes em que esta pequena narrou a mim tal história é tão surpreendentes quanto à própria narrativa. Porém minha modéstia me inibe e por isto passo a contar apenas o que ouvi.

 

“Isabel dizia palavras frias em sua última tentativa de afastar de si, Juraci, um jovem acanhado de comportamento ilibado... Juraci mantinha o sorriso e a amizade intensa enquanto ouvia atentamente as palavras abrasivas ditas por sua paixão.

“[...] não te quero próximo, alimentando seus desejos, alimentando seus desejos e idéias, de que pode mudar o que sou!”.

“Juraci ouviu estas últimas palavras e partiu...”.

“Seis meses passam rápidos, e passou... Demoraram horas, dias e semanas para que a imagem do jovem apagasse quase que complemente das lembranças da pequena. E esta, solitária num banco de praça se pusesse, em mente, a orar. “És justos viver assim, só sofre, só sofre? Por que Vós não pudestes ser mais claro em ajudar-me” — orava.”

“Como por milagre um senhor de vestes velhas e afeições agradáveis se aproximou e sentou-se junto à moça”.

— Tantas queixas, tantas queixas! — exclamou o senhor.

— Não me queixo com você!” — respondeu Isabel sem se tocar que suas orações eram imperceptíveis a quem a olhava.”

E o senhor olhando ao céu suplicou:

— Dê-me paciência.

Isabel se levantava incomodada pela presença, quando o velho a interrompeu:

— Espere! O que você queria, asas, trilha sonora... Estou aqui para responder suas perguntas.

— Deus!? — perguntou Isabel em tom quase de desespero.

— Não, Augustos o mensageiro a seu dispor.

— Não mereço, não mereço, perdão Senhor — suplicava a garota.

— Ah, é certo que não merece, só que tua fama já está crescendo, ninguém faz mais nada lá encima. Você pede, pede, pede, agradece um pouco e pede mais...

— Pensei que estivesse sozinha — disse a jovem em tom de lamento.

— Não pode! Um ser não conseguiria reclamar deste tanto sozinha, se não acreditasse que alguém no oculto a assisti. E já continuando a fim de terminarmos este papo o mais rápido possível. Poderia me dizer o que mais você quer?

— Eu nada, tudo é lindo, é maravilhoso, as pessoas são boas.

— Poupe-me deste papo de quem viu anjo, e solte as reclamações.

“Isabel pensou alguns segundos enquanto Augustos resmungava baixo, então falou:”

— Minha vida... sei que a quero, sei que é um dom de Deus, só que sofro pois tenho muitas dificuldades. Eu vivi muitas coisas que me deixaram longe de Deus, eu ofendi meus pais, eu roubei, me entreguei a luxuria, eu...

“Isabel é interrompida por Augustos:”

— Eu sei! Sou um anjo se você precisa se confessar procure um padre. Tem uma igreja a duas quadras.

— Eu sou evangélica! — exclamou Isabel

O anjo já impaciente advertiu:

— Eu sei, eu sei. Não existe um algo seu que eu não conheça, você vai ou não vai fazer-me uma pergunta?

Isabel fitando o horizonte, continua a falar em tom de lamento:

— Eu busco o caminho certo, mas sou fraca, sou facilmente seduzida pelos prazeres mundanos. — o velho bocejava e Isabel continuava — sou volúvel, sou pecadora... Pois bem quero saber o porquê do sofre, se Deus nos ama tanto por que me fez viver tudo aquilo, por que ele me abandonou, por que eu sofri, por que...

“Augustos a interrompeu:”

— Uma de cada vez!

— Pois bem — disse Isabel — por que Ele me deixou sozinha?

— Como ousa dizer que Ele lhe deixou sozinha! — irritou o velho

— Sou eu que faço as perguntas? — insistiu Isabel.

— Pois bem, — disse o anjo — então devemos voltar a história. Lembra-se de quando estava longe de sua casa, sozinha, lembra-se? Quanta coisa fez de errado, quanto pecou. Ele poderia ter lhe dado às costas, mas sua infinita misericórdia a trouxe de novo a tua família, e você...? Nem se quer O ajudou. Lembro como se fosse hoje: Tivemos que mobilizar toda uma tropa de arcanjos pra trazer você para seus pais... E quando já em casa, questionava tudo e a todos. Era vazia e solitária... Ele lhe deu um mundo de oportunidades, novas e saudáveis. Ou você acha que o que tens vem do suor de seu rosto... em?? E a última antes de'eu ir embora. E aquele garoto que foi colocado em seu caminho. Poderiam ter sido muito felizes, mas você não... não aceitou...

“Intrigada Isabel o interrompeu questionando-o:”

— Quem?

— Aquele moreno, o ... O de cabelo grande, o...

— Fábio? — perguntou Isabel

— Não este não.

— Alberto?

— Este também não!

— Eduardo?

— Não, não, não...

— Luís?

— Claro que não!

— Natanael?

— Você lembraria, se concentrasse nos últimos seis meses.

— Eu estou falando dos últimos seis meses — disse Isabel.

“O anjo se colocou de joelhos no chão, levantou os olhos para o céu e orou:”

— Senhor por que insiste?

“Voltando a se sentar, continuou:”

— É ju ou jo... Juvenal, não, não...

— Juraci! — exclamou Isabel.

— É esse!— gritou o anjo, antes de continuar — Você e o Juraci poderiam ter sido muito felizes, mas você... não aceitou...

— Você tem certeza que está falando da pessoa certa?

— Claro que tenho, nós anjos nunca erramos — disse Augusto em tom esnobe.

— E eu posso fazer alguma coisa? — perguntou Isabel.

— Deve! — respondeu o anjo — A partir de hoje terá que ser feliz, pois Ele disse que não podemos mais te carregar. Esta é a sua vida, se acharmos que você precisa de ajuda urgente, então teu anjo da guarda será o único a te ajudar. Suas preces serão ignoradas, por que você é dada como uma... — o anjo pensou — ... você é dada como uma... — pensou mais um pouco — Como uma chata!

Então o anjo se levantou, e fitando-a disse aos berros:

— Seu único objetivo é ser feliz, e fazer os outros felizes. Compartilhar o verdadeiro amor de Deus, este é seu único trabalho para o resto de sua vida. Adeus. E assim o anjo partiu e deixou Isabel a refletir.

Não muito longe dali Augusto e Juraci se encontravam.

— Eu disse tudo o que você me falou mais algumas palavrinhas que acredito poderem ajudar — disse Augusto.

— Que palavrinhas? — perguntou Juraci.

— Só palavrinhas dentro do contexto, disse que tinha de ser feliz pois era o que Deus quer pra ela... Coisa e tal.

— Será que não estamos cometendo um pecado? — questionou Juraci.

— Não mentimos. Vá pra casa, ela deve te ligar.

— Não sei como posso lhe agradecer?

— Comece-me pagando os 50 reais do combinado.

 

“Naquele dia, já as vinte e três horas da noite o telefone tocou na casa de Juraci, era Isabel que o cumprimentou com grande alegria. O jovem manteve certa tristeza conseqüência da culpa. “Ela nunca me ligaria por sua vontade” — pensava Juraci. Mas a pequena o empolgava, e entre “saudades” e elogios, uma só, foi à suma: Valera muito os 50 reais gastos.

Marcaram um encontro em um parque. Lá sentados bem juntinhos, ficaram a falar sobre as coisas boas que poderiam fazer. E neste meio chega-pra-cá, chega-pra-lá, os dois flertaram-se e se aproximaram.

— Estou pronta... quero — disse Isabel.

Juraci permaneceu quieto então a jovem continuou:

— Não me importo que você alimente seus desejos, verdade é que eu gosto.

— Bom, bom mesmo — disse Juraci.

— Então acredito hoje, que possamos ser felizes... — Isabel deu uma pausa e continuou: Podemos ser felizes, irei me aplicar em mudar-me e...

— E? — perguntou Juraci.

— E... fale alguma coisa!

— Falar? — questionou Juraci — Falar o que?

— Falar de novo aquilo — disse Isabel relembrando-o.

— Aquilo? — o rapaz se intrigou.

— É aquilo que você já disse, não seja imbecil.

Então o jovem respirou profundamente e disse:

— Eu quero namorar você, e você quer namorar-me?

E Isabel disse: “Sim”, e eles se abraçaram e se beijaram, e... foi isto. E eles viveram felizes...

Até o outro fim de semana quando Juraci e Isabel chegaram a igreja. Isabel que se empolgara à perda do receio quase traumático que tinha por aquele ambiente sacro, seguiu até o bazar da capela onde procurava comprar uma Tau, um pequeno T, conhecida cruz de São Francisco de Assis. Enquanto comprava seu primeiro símbolo cristão, teu jovem amor foi surpreendido por um encontro inesperado.

— Juraci — disse Augusto empolgado.

— Que faz aqui? — questionou Juraci.

— Venho participar da celebração.

— Aqui? Não pode! Aqui não. Isabel está aqui.

“Mas a advertência já era tardia. A jovem já os fitava com as afeições pálidas... Augusto sorriu e disse com simpatia:”

— Vim ver como estão.

Isabel acreditou e também sorriu, mas Juraci cansado com tudo aquilo disse:

— Se me ama de verdade, então pode saber. Eu paguei 50 reais para que lhe dissesse aquelas palavras no parque.

“Isabel virou-se rapidamente e se pois a caminhar, enquanto se distanciava, ouvia as suplicas do rapaz para que o perdoasse, mas ela desprezou as palavras do jovem... Ela o desprezou.”

 

 

Continuando a história... A noite era fria, e Isabel manteve um orgulho que Juraci não tinha. Assim foi à casa de sua melhor amiga e se juntou a um grupo indo para a boate que vamos agora.

 

* * *

 

 

“Juraci participou da missa e na hora que saia, Isabel entrava na boate, onde um jovem de feição alegre e viva, aproximou:”

— Boa noite?

— Péssima — respondeu Isabel.

— Quer conversar?

— Não.

— Então vamos só beber.

“Isabel bebeu, dançou e ao fim das noites estava entre beijos e amassos num canto escuro da boate.”

Enquanto isto...

— Sabe que ela não é sua? — questionou Augustos a Juraci.

— Sei — respondeu Juraci

— Também sabe que não tem mais obrigação para com ela?

— Também sei.

— Então por que insiste? Se nem o céu a tem estima.

— Porque a amo...

— Como pode amá-la se o céu não a tem estima?

— Eu não poderia amá-la se o céu não a tivesse estima

— Acredita mesmo que ela é vista bem no céu? Pergunte aos querubins se a sente, pergunte aos arcanjos se a defende, verás que não! — observou Augustos.

— Estamos aqui para resgatá-la. — sussurrou Juraci — Se ela soubesse...

— Se soubesse o que? Se soubesse que os lugares que ela entra não são permitidos para os anjos, tão somente para os homens — salientou Augusto.

— Se ela soubesse que me tornei homem...

— Por ela... — sussurrou Augusto, e após uma pausa continuou — Antes você se via incapaz da ajuda-la por não poder interferir nos atos dela. Agora pode interferir, mas não pode impedir. Terás que comer do suor de seu rosto, terás vergonha e morrerá... Grande coisa você fez. Se existe alguém que você deva se sacrificar, este alguém com certeza não é Isabel.

“Juraci sentou no meio fio e como os olhos cheios de lágrimas suplicou a Augusto sua intercessão”.

— Você parece Isabel suplicando por misericórdia, eu não devo ajudá-lo. — disse Augusto mascarando a dor de sua consciência, então continuou — Não ira me ver. Não iremos conversar, mas sabes que pode falar comigo e que eu estarei a lhe ouvir, sabe também que te amo. Não deveria... — hesitou Augustos — mas como é a última chance da jovem... Bem, digo-lhe pela última vez. Desista, pois ela não é bem vista no céu.

— Eu não a amaria tanto sem a benção D'Ele.

— É eu sei... Então lhe dou as últimas instruções. Isabel voltou àquela boate. Desta vez você poderá entrar... Uma utilidade em ser mortal é que havendo ar condicionado você pode entrar em qualquer buraco... Vá lá. Ela está com um cara, chamado... é ... sou péssimo com nomes falsos e de desconhecidos. Seria inevitável que eles não se conheçam esta noite. E acontecendo será o fim de Isabel.

— A misericórdia é infinita — disse Juraci

— Todos falam sobre ela, ela chama o mal. Outros como você se rebelam e é inevitável que um exemplo seja dado. Vá lá. Ela só tem você.

— A compaixão d'Ele é infinita.

— Você é toda compaixão d'Ele, agora... Vá lá. Sem medo pois Deus é Fiel, e não importa onde esteja ele sempre estará a assistir-lhe.

“Juraci caminhava com dificuldade entre as pessoas, naquele ambiente que o causava ojeriza. Quando chegou ao extremo oposto a porta virou-se por intuito irracional e viu Isabel sendo arrastada pra fora por um homem. Com dificuldade retornou o mais rápido que pode. Chegando à rua viu o carro partir para direção norte. O carro tomou um retorno a 50 metros e Juraci atravessando a rua se colocou à frente para impedi-lo”.

“O carro freou, e o motorista colocando sua cabeça para fora do veículo, insultou o jovem e mandou que saísse”.

— Isabel! — gritava Juraci.

— Ela está comigo, vai caçar outra! — disse o rapaz ao volante.

— Isabel quero falar com você!

“O carro continuou seu percurso em primeira marcha atropelando levemente Juraci que se colocou sobre o capo. O rapaz que dirigia o carro, então parou, desceu e segurando Juraci pelo pescoço o ameaçou: — Você quer morrer? Então toma!”.

“Após uma forte surra Juraci foi jogado à calçada. Perdendo a consciência ao chocar a cabeça contra o meio-fio.”

“Às cinco horas quando Isabel saia do motel, Juraci entrava no centro cirúrgico onde morreria alguns minutos depois.”

 

Sílvio Lôbo Júnior.