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Gênese Imprimir E-mail
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Escrito por Sílvio Lôbo   
Sáb, 24 de Outubro de 2009 23:59

 

O paraíso fica bem ali. Não foi criado pela palavra de um, mas pelo trabalho de dois. O jardim se espalha por potes, a casa fica no fundo, distante d’um portão velho e de coisas organizadamente abandonadas cujo sentido o diabo desconhece.

Lá caminhei despido do mundo...

Lá aprendi ser feliz.

Última atualização em Qui, 05 de Novembro de 2009 03:23
 
Outro dia, Imprimir E-mail
Escrito por Sílvio Lôbo   
Qui, 03 de Setembro de 2009 11:52

Este texto é fictício, qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência.

    Ninguém sabe realmente do que um homem é capaz. Tinha 19 anos, morava sozinho num cubículo com banheiro e o aluguel levava quase a metade do que ganhava como repositor de estoque num supermercado. O restante pagava numa faculdade de Letras feitas precariamente no horário noturno, lhe restava pouco ou nenhum dinheiro. Seus gastos de ônibus eram da economia feita com a venda os passes de ônibus e vales-alimentação. Um nada que se multiplicava, trocados aparentemente insignificantes eram depositados numa poupança bancária. Uma vida urbana, pobre e rústica.

    Horário de verão, ainda era escuro. Lavava o rosto esfregando o com força. Comia algumas bolachas de sal e engolia um gole de água. Não se sentia pobre. Era ele, Paulo Cesar, despertava mais um dia, vestia o uniforme deixado sobre o fogão de tampa baixada, envolvia-se numa jaqueta jeans já surrada e abria a porta de seu quarto deixando sair um bafo quente, que pareceu acordar o condomínio de 12 apartamentos, todos maiores que o seu.

    Estava em seu posto as sete e meia, as oito horas quando passou o cartão que marcava o começo de seu expediente de trabalho, já tinha esvaziado dois carrinhos de enlatados. Era este seu trabalho. Puxar o carrinho do estoque até as prateleiras e lá posicionar um por um os enlatados, as sacos, frios, frutas e legumes. Era assim mais de dois anos, mas parecia bem mais. Parecia uma vida toda.

    Ao meio dia começava seu almoço, ele apenas caminhava para um canto da empresa. Sempre tinha fome, mas nem sempre vontade de comer. Havia algo que não o deixava ter prazer. Ele sabia o que era, mas não lhe permitia pensar. Ficava no refeitório o suficiente para comer, então pegava alguns pãezinhos colocava na bolsa, estes seriam seu jantar, e dali caminhava até a praça a três rua de lá, ali esperava a hora de voltar.

    Oito horas de trabalho diário, dividido por duas horas de almoço, logo dez horas de seu dia era lá sobre o laranjado  forte das paredes. Saia já com passos rápidos, não podia perder o próximo ônibus, e sempre chegava à faculdade às dezenove. As aulas estavam marcadas pra começar as dezoito e quarenta e cinco, mas a realidade de Paulo Cesar não era muito diferente dos outros ali, passada as dezenove, também o professor entraria na sala.

    As aulas eram bem diferentes das grandes faculdades, o professor já conhecido dos últimos quatro semestres e com absoluta certeza estaria nos quatro que faltavam estava ali. Já disseram que nenhum professor teria competência para as matérias de Lingüística, Gramática, Literatura Brasileira, Portuguesa. Mas ali tudo era possível, se não de realizar, seria de fazer. No intervalo comia os pães guardados em sua bolsa, e as vinte e duas horas caminhava para o ponto esperar o ônibus.

    A faculdade era mais distante da sua casa que o supermercado. Mas naquela hora o ônibus voava, pelas ruas e pontos vazios. Então chegava em menos do que levava pra ir. As vinte e três horas e quarenta minutos já estava banhado e deitado em sua cama pronto pra sonhar.

Última atualização em Dom, 25 de Outubro de 2009 02:04
 
Agosto Imprimir E-mail
Escrito por Sílvio Lôbo   
Sex, 21 de Agosto de 2009 23:55

Este texto é fictício, qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência.


Não se preocupe em ler este email. Ele foi escrito sob uma grande árvore na Praça do Metrô próximo ao aeroporto onde todos os dias pego o ônibus pra faculdade. Hoje está uma bagunça, o presidente estará na Praça Antônio Matos, muitos ônibus que cortariam Filadélfia e Custódio como o 007 Central já anunciavam no ponto que só iriam até a vila Divina e que de lá seguira direto ao Termina Sul sem paradas. Outros que costumam ter intervalos de 20 a 30 minutos depois de grande demora chegavam em dois, o que demonstram que um grande congestionamento fazia do Setor Central um grande gargalo no fluxo de veículos.

 

É muito comum que eu escreva aqui, rabisco em folha de papel e nelas ficam até se perderem em algum caderno velho, esta é diferente, é uma carta e deve ser entregue, porém não há aqui um intuito formal. Meu ônibus sempre demora um pouco, se perco algum por pouco, devo esperar 30 minutos, com freqüência é comum que ele atrase um pouco mais, porém o recorde é 67 minutos, o que pra mim já ultrapassou em muito a barreira psicológica de uma hora.

Mas há motivos. Hoje estou triste. As coisas acontecem tão ruins comigo. Não consigo bater os joelhos no chão e agradecer por não ter um câncer no intestino, ou por ter as duas pernas. Já sabia o poeta que o essencial é invisível aos olhos, já sabe o senso comum que há inútil imaginas alguém em pior estado que nós como forma de consolar. Parece que só a Igreja e a minha madrinha ainda acreditam na vertente que afirma que “poderia ser pior”.

Ah, claro que pode.

Última atualização em Dom, 25 de Outubro de 2009 02:07
 
Aqui - Ana Carolina Imprimir E-mail
Escrito por Sílvio Lôbo   
Sex, 10 de Julho de 2009 13:50

Desenhos Sìlvio Lôbo

 


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